"O homem está condenado a ser livre" - Jean Paul Sartre
Mais uma vez, iniciarei
meu texto com um pensamento e a ausência do significado que dei a ele.
Reflexões sempre são bem-vindas e espero que cada um possa adotar uma forma de
traduzi-lo na discussão que se segue.
Rotineiramente,
eu e muitos conhecidos fazemos uso da expressão "enraizadamente machista"
para descrever sociedades que, como a nossa, não superaram a desigualdade de
gênero e caminham a passos lentos para o dia em que as mulheres deixarão, por
completo, de sofrer as consequências de um pensamento que cerceia sua liberdade
e as coloca em segundo plano nos diferentes âmbitos sociais. Acontece que, nas
discussões diárias e comentários alheios, notei que o termo "enraizadamente" pode
alimentar um grande equívoco - já existente quando tratamos do
pensamento machista em nosso país.
Por isso,
vamos iniciar esclarecendo e corrigindo? O machismo é uma construção social, e
não algo inerente ou natural ao ser humano, - em especial aos homens - como
muitos pensam. Uma vez construção, devemos perceber que ninguém nasce machista, mas sim que as influências recebidas
por essa pessoa, muitas vezes nos primeiros anos de sua formação, fazem com que
ela reproduza e aja de acordo com os pilares e preconceitos que sustentam o pensamento.
Dessa forma, também existem mulheres machistas. E SIM! Nós podemos
desconstruí-lo.
Pode
parecer estranho ou mesmo utópico, mas dizer que "os homens também se
beneficiariam com a luta das mulheres" é a mais pura verdade que,
entretanto, muitos se negam a compreender e enxergar. O real movimento
feminista - protagonizado por nós, mulheres - luta e defende a igualdade de
gênero, a liberdade do indivíduo para que ele atue em sua sociedade de acordo
com suas próprias vontades, e não com um padrão pré-estabelecido.
Por isso, hoje, vim
mostrar o quão relevante é, para ambos os lados, a participação de todos em
prol de uma mudança.
Vivemos
em uma sociedade que, mesmo sem perceber, atua de acordo com uma ordem compulsória. E
sobre isso, a notória filósofa estadunidense Judith Butler já dissertava. Para
ela, vivenciamos uma "performatividade
social", ou seja, nossa sociedade organiza-se de acordo com um ciclo que
tem início ainda quando estamos na barriga de nossas mães. Ao descobrir nosso
sexo, aqueles que nos rodeiam automaticamente estabelecem o gênero e a
orientação sexual aos quais deveremos pertencer. Por exemplo, se o bebê possuir
um pênis, será um menino que, necessariamente, sentirá atração por meninas. O
assunto é muito mais complexo e denota uma vasta atenção, mas vejam se entendem
onde quero chegar: você, eu, e basicamente todos aqueles que nos cercam já
tiveram ou ainda terão, em algum momento de suas vidas, sua liberdade cerceada
por padrões considerados "naturais"
pela comunidade. E eu não acho isso tão natural assim.
Os
exemplos no dia a dia são inúmeros: homens não podem chorar; mulheres,
tradicionalmente, são bem dotadas para os afazeres domésticos; meninos devem
tomar a iniciativa para falar com as meninas; o homem deve, por questão de
honra, possuir o maior salário; garotas não devem ficar com muitos garotos; há
de se ter, naturalmente, a vontade de casar. Isso quando não falamos da
histórica violência de gênero da qual as mulheres são vítimas: segundo um
estudo realizado pelo Ipea, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil
feminicídios, ou seja, mortes de mulheres por conflito de gênero. Mais do que
isso, já pararam para pensar que a existência da homofobia e lesbofobia está
atrelada ao machismo? Pois é. Nosso país registrou 313 mortes da população
LGBTTT no ano passado, segundo levantamento feito pelo Grupo Gay da Bahia
(GGB). Ainda segundo a pesquisa, 44% dos casos de homofobia letal identificados
em todo o mundo ocorrem em território brasileiro.
É inegável que nossa
sociedade avançou em muitos campos, mas dados como esses nos mostram que ainda
há MUITO para ser feito. E a mudança começa por cada um de nós.
Nossa
forma de agir, de julgar o comportamento alheio, de estabelecer parâmetros para "certos" e "errados" de acordo com
aquilo que optamos por acreditar, reflete qual é o projeto de mundo em que
queremos viver e que desejamos para as gerações futuras. Muito mais do que a
supervalorização das características físicas e culturais associadas ao sexo
masculino em relação às associadas ao sexo feminino, o machismo cerceia a nossa
liberdade.
Há de se falar do caráter
particular de cada ser humano que integra nossa sociedade.
Homens: não enganem-se em
pensar que o feminismo é nossa particularidade. Nós somos as protagonistas, mas
vocês também devem ansiar por uma luta que nos liberte e alcance a igualdade.
Mulheres:
que não tenhamos medo de lutar por tudo que sempre nos oprimiu. Toda mulher -
seja ela atuante do movimento ou não - é fruto da luta que nossas ancestrais
promoveram para que conquistássemos nossos direitos.
Por último, sobre a citação que transcrevi acima: admiro muito a vida e produção de Sartre, assim como a de sua companheira de vida, Simone de Beauvoir (da qual pretendo falar muito aqui). Ambos basearam sua obra no Existencialismo, uma corrente filosófica que combate a filosofia da essência. Para eles, não há uma natureza humana. O homem é livre para trilhar seu caminho, fazer suas escolhas e arcar com as consequências de seus atos, o que - segundo Sartre - seria o motivo para que tantos seres temessem abraçar sua liberdade.
Nossas responsabilidades
são muitas, nossas preocupações inúmeras, mas nossos sonhos também são
incontáveis. Não devemos permitir que ninguém tome para si o poder de limitar
nossos caminhos, possibilidades, a nossa liberdade,
o nosso existir; e
temos o dever de defender e lutar por aqueles que encontram-se nessa situação.
Por isso, libertemo-nos!
Deixo aqui o vídeo do
discurso maravilhoso e emocionante que a atriz Emma Watson fez para divulgar a
campanha da ONU HeForShe.
Emma, obrigada!
Espero
que tenham gostado e que - assim como anseio e como defende Emma em seu
discurso - nos deparemos cada vez mais com feministas
involuntários (e os
voluntários também)!
Muita luz pra nós!


