domingo, 18 de janeiro de 2015

Libertemo-nos!

"O homem está condenado a ser livre" - Jean Paul Sartre


Mais uma vez, iniciarei meu texto com um pensamento e a ausência do significado que dei a ele. Reflexões sempre são bem-vindas e espero que cada um possa adotar uma forma de traduzi-lo na discussão que se segue.
Rotineiramente, eu e muitos conhecidos fazemos uso da expressão "enraizadamente machista" para descrever sociedades que, como a nossa, não superaram a desigualdade de gênero e caminham a passos lentos para o dia em que as mulheres deixarão, por completo, de sofrer as consequências de um pensamento que cerceia sua liberdade e as coloca em segundo plano nos diferentes âmbitos sociais. Acontece que, nas discussões diárias e comentários alheios, notei que o termo "enraizadamente" pode alimentar um grande equívoco - já existente quando tratamos do pensamento machista em nosso país.
Por isso, vamos iniciar esclarecendo e corrigindo? O machismo é uma construção social, e não algo inerente ou natural ao ser humano, - em especial aos homens - como muitos pensam. Uma vez construção, devemos perceber que ninguém nasce machista, mas sim que as influências recebidas por essa pessoa, muitas vezes nos primeiros anos de sua formação, fazem com que ela reproduza e aja de acordo com os pilares e preconceitos que sustentam o pensamento. Dessa forma, também existem mulheres machistas. E SIM! Nós podemos desconstruí-lo.
Pode parecer estranho ou mesmo utópico, mas dizer que "os homens também se beneficiariam com a luta das mulheres" é a mais pura verdade que, entretanto, muitos se negam a compreender e enxergar. O real movimento feminista - protagonizado por nós, mulheres - luta e defende a igualdade de gênero, a liberdade do indivíduo para que ele atue em sua sociedade de acordo com suas próprias vontades, e não com um padrão pré-estabelecido.
Por isso, hoje, vim mostrar o quão relevante é, para ambos os lados, a participação de todos em prol de uma mudança. 


Vivemos em uma sociedade que, mesmo sem perceber, atua de acordo com uma ordem compulsória.  E sobre isso, a notória filósofa estadunidense Judith Butler já dissertava. Para ela, vivenciamos uma "performatividade social", ou seja, nossa sociedade organiza-se de acordo com um ciclo que tem início ainda quando estamos na barriga de nossas mães. Ao descobrir nosso sexo, aqueles que nos rodeiam automaticamente estabelecem o gênero e a orientação sexual aos quais deveremos pertencer. Por exemplo, se o bebê possuir um pênis, será um menino que, necessariamente, sentirá atração por meninas. O assunto é muito mais complexo e denota uma vasta atenção, mas vejam se entendem onde quero chegar: você, eu, e basicamente todos aqueles que nos cercam já tiveram ou ainda terão, em algum momento de suas vidas, sua liberdade cerceada por padrões considerados "naturais" pela comunidade. E eu não acho isso tão natural assim.
Os exemplos no dia a dia são inúmeros: homens não podem chorar; mulheres, tradicionalmente, são bem dotadas para os afazeres domésticos; meninos devem tomar a iniciativa para falar com as meninas; o homem deve, por questão de honra, possuir o maior salário; garotas não devem ficar com muitos garotos; há de se ter, naturalmente, a vontade de casar. Isso quando não falamos da histórica violência de gênero da qual as mulheres são vítimas: segundo um estudo realizado pelo Ipea, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil feminicídios, ou seja, mortes de mulheres por conflito de gênero. Mais do que isso, já pararam para pensar que a existência da homofobia e lesbofobia está atrelada ao machismo? Pois é. Nosso país registrou 313 mortes da população LGBTTT no ano passado, segundo levantamento feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Ainda segundo a pesquisa, 44% dos casos de homofobia letal identificados em todo o mundo ocorrem em território brasileiro.
É inegável que nossa sociedade avançou em muitos campos, mas dados como esses nos mostram que ainda há MUITO para ser feito. E a mudança começa por cada um de nós.
Nossa forma de agir, de julgar o comportamento alheio, de estabelecer parâmetros para "certos" e "errados" de acordo com aquilo que optamos por acreditar, reflete qual é o projeto de mundo em que queremos viver e que desejamos para as gerações futuras. Muito mais do que a supervalorização das características físicas e culturais associadas ao sexo masculino em relação às associadas ao sexo feminino, o machismo cerceia a nossa liberdade.
Há de se falar do caráter particular de cada ser humano que integra nossa sociedade.
Homens: não enganem-se em pensar que o feminismo é nossa particularidade. Nós somos as protagonistas, mas vocês também devem ansiar por uma luta que nos liberte e alcance a igualdade.
Mulheres: que não tenhamos medo de lutar por tudo que sempre nos oprimiu. Toda mulher - seja ela atuante do movimento ou não - é fruto da luta que nossas ancestrais promoveram para que conquistássemos nossos direitos.

Por último, sobre a citação que transcrevi acima: admiro muito a vida e produção de Sartre, assim como a de sua companheira de vida, Simone de Beauvoir (da qual pretendo falar muito aqui). Ambos basearam sua obra no Existencialismo, uma corrente filosófica que combate a filosofia da essência. Para eles, não há uma natureza humana. O homem é livre para trilhar seu caminho, fazer suas escolhas e arcar com as consequências de seus atos, o que - segundo Sartre - seria o motivo para que tantos seres temessem abraçar sua liberdade.
 
Nossas responsabilidades são muitas, nossas preocupações inúmeras, mas nossos sonhos também são incontáveis. Não devemos permitir que ninguém tome para si o poder de limitar nossos caminhos, possibilidades, a nossa liberdade, o nosso existir; e temos o dever de defender e lutar por aqueles que encontram-se nessa situação. Por isso, libertemo-nos!

Deixo aqui o vídeo do discurso maravilhoso e emocionante que a atriz Emma Watson fez para divulgar a campanha da ONU HeForShe. Emma, obrigada!


Espero que tenham gostado e que - assim como anseio e como defende Emma em seu discurso - nos deparemos cada vez mais com feministas involuntários (e os voluntários também)! 

Muita luz pra nós!



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Por uma mídia educativa, por consciências e por respeito!

Eu não sou Charlie.
"Cada consciência busca a morte da outra" - Hegel

Poderia começar esse texto explicando o intuito pelo qual transcrevi a citação de Hegel acima ou dizer qual significação dei a ela perante os últimos tempos. Mas deixarei isso para o final, pois acho que certos pensamentos merecem um bom - e, ao menos pra mim, sempre profundo - momento de reflexão.
Nos últimos dias, a França vivenciou uma série de ataques que mobilizaram não só a sua população, como a de muitos países ocidentais que manifestaram seu apoio aos franceses. Passei esse período lendo e relendo textos e comentários na internet, páginas e mais páginas de blogs que, rapidamente, formularam uma opinião e a publicaram para que muitos, sem tanto analisar e balancear, acabassem aderindo. Além disso, vi a mídia televisiva ocupando boa parte de sua grade com comentários e repetições dos acontecimentos.
Acontece que, por hora, não vim falar sobre a tão comentada liberdade de expressão (que - como futura jornalista e atuante da democracia - defendo sem hesitar), ou sobre o terrorismo praticado por grupos radicais pertencentes ao Islã. Creio que muitos já o fizeram com mais propriedade que eu. Vim falar do que acredito ser respeito, ética, e do quão desapontada me encontro, rotineiramente, com nossos veículos midiáticos quando nos deparamos com grandes acontecimentos.
Não sei qual a opinião de vocês, mas defendo que a mídia carrega consigo um papel educativo. Formar cidadãos de acordo com suas crenças e interesses particulares? De jeito nenhum! Ser de direita ou esquerda, católico ou budista ,são opções que devem ser tomadas por você, de acordo com o projeto que crê ser o melhor para nosso mundo. Quero falar sobre a colaboração para formar cidadãos mais humanos, éticos, conhecedores de história e que tenham argumentos bem fundamentados para entrar em discussões ou disseminar suas opiniões por aí.
Porém, infelizmente, conto nos dedos de uma mão em quantos veículos vejo isso. Na internet, páginas como o Blog do Sakamoto e o Portal Geledés Instituto da Mulher Negra são dois dos pouquíssimos meios em que observo um jornalismo limpo, que tem vasta base histórica e quer mostrar pra gente o quão relevante é ver e pensar de todos os ângulos possíveis.
Talvez alguém imagine onde quero chegar e, antes de tudo: NÃO! Não penso que nada justifique tirar a vida de um ser humano, independentemente do desrespeito que ele tenha praticado com sua crença ou existência. Entretanto, quantas vezes vimos um jornal noticiar, em meio a todos os ataques e posteriores desdobramentos, a xenofobia e o etnocentrismo do povo francês em relação aos muçulmanos?
Ampliando um pouco: quantas vezes vimos, ao noticiar um feminicídio, o telejornal agregar à matéria um embasamento da histórica violência que recai sobre a mulher em uma sociedade enraizadamente machista? Ou quantas vezes um noticiário divulgou a morte de um jovem negro ampliando a discussão com estatísticas que comprovem o fato de essa parcela populacional ser a mais assassinada? Quando foi que, na televisão, ouvimos falar da completa desatenção mundial perante o Ebola que, se não tivesse atingido o continente africano, teria sido visto como um real problema mundial?
Para não ser injusta, neste domingo (11), o Fantástico reservou a parte final de sua matéria sobre o ataque à sede do Charlie Hebdo, para explicar como a população muçulmana - oriunda, principalmente, das ex-colônias francesas ao norte da África - é mal vista e julgada pela população francesa e o quanto essa onda de ataques aumentará os conflitos já existentes. Agora, alguém me diz: por que não inciar a matéria explicando isso? Por que deixar tão explícito que não é de seu interesse criar opiniões que vejam os dois lados da história? 
Não são todos que, como eu e muitos de vocês, têm acesso a todo tipo de informação e, principalmente, interesse em procurá-la. Sabemos que a grande maioria da população brasileira assiste a uma mídia televisiva que atua, indiretamente, como formadora de opinião. E é essa a opinião que queremos para o país? Não, obrigada.
É nesse viés de informações distorcidas ou mal complementadas, que observo quase agora está imagem:

O desrespeito e ignorância chegaram a um patamar tão elevado, que o maior templo islâmico de nosso país, a Mesquita Brasil, amanheceu pichada neste domingo (11) com o famoso slogan "Je suis Charlie".

Não precisei estudar para saber que o papel da comunicação não está sendo cumprido. Mostrar os dois lados da história, debater, provocar opinião e discussão: esse é o real papel. Não que queiramos conviver com cidadãos que julguem-se donos da verdade. Mas, ansiamos por encontrar mais pessoas que - exemplificando com o caso atual - saibam nos mostrar e discutir o desenrolar dos acontecimentos e da história francesa que culminou nos recentes ataques e, o pior de tudo, nas recentes mortes de vinte seres humanos.
Por isso, já declarado o quanto repudio os ataques atuais e os anteriores cometidos por organizações como a Al Qaeda, eu afirmo no meu existir que: Je ne suis pas Charlie. Sou Clarissa Jean-Phillipe, Franck Brinsolaro, Ahmed Merabet, Frédéric Boisseau, Michel Renaud, Georges Wolinski, Stéphane Charbonnier, Jean Cabu, Bernard Verlhac, Bernard Maris, Mustapha Ourad, Elsa Cayat, Phillippe Honoré, Yoav Hattab, Yohan Cohen, Philippe Braham, Francois-Michel Saada; sou cada uma das mulheres que são assassinadas a cada 90 minutos no Brasil em decorrência da violência de gênero; sou cada Mike Brown; sou cada uma das 2.000 vítimas nigerianas mortas na cidade de Baga na última quinta-feira (28). Por que sou eles? Porque eles são as vítimas da histórica injustiça que marca o mundo em que vivemos, eles são aqueles dos quais devo me lembrar a cada decisão que tomar, a cada vez que eu optar pelo respeito a todos como a forma mais humana de existir.

Por último, sobre a citação que publiquei no início do post: apesar de muito ter lido sobre o embasamento que Hegel deu para o assunto, não me atrevo a tentar explicar. Compartilho apenas que, no mesmo momento em que li, essas palavras me fizeram pensar sobre intolerância, sobre divergência, sobre Charlie Hebdo, sobre etnocentrismo. Mais do que isso, pensei sobre egoísmo. Pensei no quão feliz me ponho perante os diferentes seres que compartilham a sociedade comigo e o quão fundamental é essa diferença para a manutenção de nosso caráter democrático. Por fim, pensei como estamos carentes de mais consciências no meio de tragédias como as vivenciadas pelo povo francês e, principalmente, as vivenciadas por nós, brasileiros, diariamente.
 Aqui deixo um vídeo que acredito estar relacionado com tudo isso (além de ser lindo).


Agradeço quem gastou um tempinho pra ler meus pensamentos e refletir e espero que tenham gostado. Muita luz pra nós!