"Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos
vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?"
Mundo Grande - Carlos Drummond de Andrade
Hoje começo dando uma indicação de filme que todos devem ver: "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert e um elenco com Regina Casé e Camila Márdila (que faz a Jéssica, personagem que ganhou meu coração). Não vou perder nosso tempo tentando resumir a história que, dentro de uma linearidade, pode até ser simples mas, quando tratamos da complexidade e da discussão por trás, há muuuito o que digerir. Como brasileiros, temos a obrigação de assistir a obra e aplaudir nosso cinema.
Assistir
ao filme me fez ligar coisas que vinham me incomodando ao longo da semana, e é
por isso que hoje venho falar sobre 'zonas de conforto' e do quão perigosas
elas são. A Jéssica - aquela personagem que depois que vocês verem o filme vão
passar a amar - me tirou de uma zona de conforto.
Aquela
sensação que incomoda, que chega mesmo a te fazer sentir vergonha por ocupar uma
posição que, indiretamente, é de opressor. E se não são esses incômodos que nos
movem para a frente, é porque nada estamos fazendo.
Paralelo
a isso, nesta semana me deparei com essa imagem, e fiquei feliz por alguém
tê-la desenhado:
É
sempre bom começar admitindo que TODOS somos individualistas, admita você
também. O que nos difere nesse quesito é
o que fazemos pra mudar isso e como mudamos. Tentar alcançar a perfeição é uma
verdadeira manivela que nos move pra trás, mas lutar, cotidianamente, pra nos
tornarmos seres que respeitam o próximo, que admiram a diferença e que, em
especial, não negam a realidade desigual que nos rodeia e querem transformá-la;
pode ser a manivela que nos move para a frente.
Eu
acho lindo ver tantos discursos desbravadores, revolucionários e que, inúmeras
vezes, me fazem muito pensar nas redes sociais. Discursos de pessoas
incomodadas com tantas distorções dos verdadeiros valores humanos na nossa tão
moderna e retrógrada sociedade (ambíguo, não? Mas é exatamente assim que a enxergo).
Triste mesmo é que são poucas as que chegam no cerne da questão.
Toda
forma de luta é mutante. As lutas avançam paralelas às transformações pelas
quais as comunidades passam e mais: elas avançam conforme descobrimos que elas
precisam abarcar mais coisas. Então vem o que chamamos de interseccionalidade e
o quão relevante ela é.
As
relações raciais sempre estiveram e sempre estarão diretamente relacionadas com
todas as questões: de gênero, econômicas, educacionais, criminais etc. A
resposta do porquê disso está na história. Somos uma sociedade discriminatória
e preconceituosa em suas raízes e, falsear uma inexistente democracia racial é,
no mínimo, querer que as coisas continuem como estão.
Assim
sendo, se, dentro do seu "revolucionário" discurso, você não enxerga
que o buraco é bem mais embaixo, você está fechando os olhos e jogando muita
sujeira pra baixo do tapete.
Esses
dias, li um texto do Leonardo Sakamoto (o qual segue o link abaixo), e uma
passagem me chamou atenção: "Violência é manter o silêncio diante da
injustiça" - creio que isso caiba muito bem.
Os
casos para exemplificar isso não faltam: é impossível falar da violência
policial sem dizer que a enorme maioria da população atingida é a da periferia
e negra, assim como é impossível falar de políticas de inclusão educacional sem
falar que as melhores universidades públicas do país apresentam um número
expressamente menor de negros do que de brancos. Da mesma forma, falar do
feminismo sem mostrar que as mulheres negras sofrem, além do machismo que nos
cerceia, inúmeras outras formas de preconceito e fetichismos é uma mentira.
E
aqui não quero dizer que sei como é lidar com esse tipo de situação. O
protagonismo não é meu, mas não é por isso que me esquivaria e deixaria de
reconhecê-lo e apoiá-lo.
E
é por isso e por muito mais que a imagem faz uma crítica construtiva. Porque a
grande maioria esquece, ou não quer,
enxergar os problemas que parecem não afetar sua vida diretamente. E
como isso é ruim.
Das
manivelas que aqui falamos, essa é mais uma
que nos move pra trás - e pior: que carrega consigo uma sociedade inteira.
Então
eu pergunto: Democracia racial? Balela! E com quantas balelas não convivemos,
diariamente, fechando nossos olhos ou nos esquivando de um problema que
aparenta não ser nosso quando, acreditem: ele é.
Por isso e por muito mais que considero essencial carregar o "olhar
de presidente" com o qual Val (personagem de Regina Casé) descreve sua
filha, Jéssica - um olhar de quem apenas por estar no mundo tem o
direito de questioná-lo e de transformá-lo. Agora, enquanto uns
possuírem esse direito às custas daqueles que o tem suprimido, tudo
estará muito errado.
Vamos questionar, vamos questionar muito! Mas, antes disso, vamos
tentar e querer que esse direito questionador e transformador seja
ampliado.
Muita luz pra todos nós!
Links:












