sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Casa-Grande não morreu

"Por isso gosto tanto da imagem do progresso, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos"
Papa Francisco
Hoje não vim falar sobre nada especifico. Tomem o meu o texto como um desabafo.
    Talvez toda essa raiva que observamos nos últimos dias e neste ano seja reflexo de quem somos - leia-se "quem somos" pela sociedade que constituímos, independente de nossas opiniões divergirem ou não da de outras parcelas. Além disso, carrego a certeza de que essa raiva não nasceu agora, este é apenas mais um momento no qual ela é exteriorizada (creio 1964-1985 ter sido o anterior a este).
    Esta raiva sempre esteve e estará presente, ela é reflexo da mentalidade que não aceita não ser ou deixar, por mínimo que seja, de ser o foco dos interesses que guiam o rumo do país no cenário interno e externo. Raiva que vem à tona quando o Brasil pensa em, a passos lentos, ostentar o lema de ser realmente um país para todos.
    Jango viveu isso. Ao lado de todos os trabalhadores e ligas camponesas que apoiavam-no com a esperança de vivenciar as reformas de base, o sonho foi destruído por, como diria o documentário de Camilo Tavares, um dia que durou 21 anos. Vinte e um anos de repressão, de violação dos direitos civis e humanos, de rompimento com a democracia, de apoio de setores da elite brasileira que, até verem a situação atingir seus lucros, acreditaram que aquilo era o melhor para o país.
    Aliás, que sempre acreditaram saber o que era melhor para o país. Porque aqui no Brasil é assim: miscigenação e povo trabalhador? Apenas quando nos convém. Quem manda mesmo é a elite branca - a casa grande não morreu não, ela está vivinha vivinha.
    O discurso de ódio manifesta-se mais uma vez e pasmem (ou não): ele pede o retorno destes vinte e um anos. Quem foi às ruas, no último domingo, munido de seus argumentos chulos e de sua precariedade no conhecimento histórico, não quer saber o que é melhor para o país. Quer saber o que é melhor para si mesmo.
    Já me peguei pensando muitas vezes nos perigos de generalizar ao vincular a elite retrógrada brasileira a estas manifestações. Mas, agora, não mais. A classe média sai nas ruas, mas os interesses por trás de tudo não são seus. E digo mais: algum dia já foram? Porque no pouco que eu sei e no que li, pra mim é claro que ela sempre fora usada como massa de manobra que, na ilusão de adquirir poder de compra e "status" social, idealizava que o país vivia momentos de prosperidade, quando a crise era iminente - valha-se de exemplo o governo JK.
    O suposto interesse por optar pelo avanço do país é tão falho que, na mesma semana em que ouve a chacina que matou 18 pessoas em Osasco e Barueri, o tema não foi tratado pelos manifestantes. Excluso porque o que acontece na periferia deve ficar na periferia.


    Sair nas ruas clamando por mudanças sem sustentamento plausível, com base em discursos recheados de sexismo e ignorância é visto como "cumprimento de seu papel de cidadão" - foi o que uma cidadã disse em entrevista ao Jornalistas Livres. Agora, quando o preto pobre revolta-se com a sua situação de marginalidade social; quando a mulher sai às ruas na luta diária pelo fim da violência; quando o homossexual revolta-se contra o preconceito e os tabus sociais; ou quando sem-terra luta pela reforma agrária e pelo fim de tamanha concentração fundiária, eles estão se "vitimizando" e fazendo baderna. Haja incoerência.
    E não há outra palavra que descreva o que vimos, foi a raiva. Raiva ao ver um negro estudando na mesma universidade que seu filho, raiva ao ver o pobre usando, a custo de muitas parcelas, o mesmo aeroporto que você; raiva ao ver uma mulher na presidência, raiva ao ver um líder dos trabalhadores no partido que está no governo. Raiva por tudo que não é convencional, porque a sociedade ocidental, apesar de ser considerada o maior parâmetro do avanço, preza pela tradição e pela "ordem".
    Todo esse cenário é entristecedor. Por isso escolhi a frase do Papa para iniciar meu texto. Mais uma vez, ele nos surpreende com a sua capacidade de ler o que nos tornamos e nos fazer refletir sobre os perigos daquilo que poderemos nos tornar. Há tantas lutas para adquirir, há tanto o que semear. Basta olhar para o todo, e não só pra você.
    É, gente, tem muita coisa errada. Muita mesmo. Mas ainda há tempo. Basta querer pertencer a algo diferente. Basta, como já dizia Kant, romper com essa situação de "minoridade social" que nos impede de pensar e andar com os próprios pés. Que nos faz atribuir tudo a ícones em nossa vida,  quando, na verdade, a realidade bate na porta ao lado e você que não quer enxergar.
Vamos continuar acompanhando tudo o que acontece - nunca perdamos o senso crítico. É ele que fará com que a nossa geração deixe uma consciência histórica da qual parecem carecer tantos hoje em dia.
Muita paz e esperança!

Um link que nos ajuda a entender:
Deixo aqui uma música que gosto muito e permite diversas interpretações. Hoje, eu já tenho a minha.