domingo, 8 de março de 2015

Todo dia é nosso dia!

Não vou ficar em silêncio. 
     Foram muitas as guerreiras feministas que conviveram em minha mente durante essa semana. Ao final, eu decidi falar da Maria X.
     "Maria X nascera na periferia de São Paulo, bairro pobre no qual, apesar das mínimas interferências governamentais, a violência ainda imperava. Começou a trabalhar cedo, já que a mãe não tinha condições de sustentar sozinha os seis filhos, e o pai as abandonara após o nascimento do último - alegando que a mulher não era mais "apresentável" e que ele merecia "coisa melhor".
     Depois de bater em muitas portas, Maria X conseguiu emprego em um  casarão da parte nobre da grande metrópole. Quarto de empregada e alimentação diária que garantiriam menos uma boca para comer na mesa de sua família. Além do mais, ao final do mês, poderia contribuir com as despesas da casa.
     Na labuta diária, no cansaço corporal, X ainda encontrava tempo para sorrir com a mínima ascensão que  sua vida vivenciava. Sorriso efêmero esse, que durou até o patrão descobrir a beleza da "empregadinha" que sua mulher contratara.
     Os abusos foram muitos até que ela sentira os primeiros enjoos. Será que fora a comida do dia anterior? Pobre Maria... Tão cedo saíra de casa que  nem as malícias da vida tivera aprendido. Mas o patrão não queria saber de filho bastardo na sua residência. A promoção no ministério estava por vir, e nada poderia manchar a imagem da família perfeita que construíra.
     Pois é... A única alternativa viável era o tal do "aborto", que ela pouco conhecia. Dele, só sabia que aquelas que na sua  comunidade se submeteram, morreram logo em seguida. Mas X não queria morrer. A vida gritava dentro dela.
     A sentença do patrão foi simples (e acompanhada de "leves" agressões, morais e físicas): ou aborta ou vai embora. Maria foi.
     Hoje, reside na mesma periferia da qual saiu. Seu filho não possui o pai que  ela também não possuiu. E ainda há quem diga que a culpa foi dela: "empregadinha safada e interesseira". Sua história não foi merecedora de capa de jornal, de narrações literárias ou de uma biografia. Mas a luta de Maria X continua."
     Você conhece Maria X? Eu tenho certeza que sim. Você já esbarrou com a Maria X? Eu garanto que sim.
     Quer saber o que mais me motivou a falar dela? Maria escapou de uma triste realidade. Se tivesse abortado, provavelmente, seria mais uma vítima da triste realidade do nosso país, onde uma mulher morre dia sim, dia não, em decorrência do aborto ilegal.
     Já  passou da hora de debatermos o aborto não como uma questão individual da essência de cada indivíduo, mas sim como um problema social que estrutura uma indústria lucrativa no Brasil as custas da vida de nossas mulheres. Está mais do que na hora de compreender que ser a favor da sua legalização não significa considerar a prática do abordo algo "legal" ou "bacana", que, ao abortar, uma mulher não sentirá orgulho ou prazer, que ser contra  sua prática não significa ser "pró-vida" mas  sim que esse é um direito que deve ser garantido às mulheres e que trará, sem dúvidas, avanços positivos pro país.
     Mas por que começar falando disso? É simples.
     O Dia Internacional das Mulheres chega e nossa sociedade, guiada pelos princípios capitalistas, teima em criar propagandas emocionantes - que valorizam, muitas vezes, o papel "mulher moderna" e a jornada tripla feminina - mas que, dificilmente, contextualizam os nossos problemas e que, raríssimas vezes, valorizam todo "tipo de mulher". Oras, não nos fechemos só a isso. Hoje o dia é da homenagem mas também da discussão!
     Aliás, você sabe a história do dia das mulheres? Sabe o por quê de termos um dia do ano supostamente reservado em prol da nossa homenagem? (Se a reposta é não, leia o link que deixei aqui no final.) Se a resposta é sim, temos que concordar que,  mais uma vez, a nossa luta se fez presente.
     Pode parecer redundante, pode soar repetitivo, pode até (para os mais conservadores) ser muito utópico, mas está aqui o que nós queremos: respeito. Acontece que a visão desse respeito está muito deturpada. Respeito não significa apenas você fechar sua boca e calar seus pensamentos machistas (também, obviamente). Mas por respeito entendemos  tratar-nos como sua semelhante e merecedoras dos mesmos direitos, indiferentemente de nossas escolhas.
     A prostituta, a estudiosa, a dona de casa, aquela que você mais admira e mesmo aquelas que, nascidas com o sexo masculino, sentem-se pertencentes ao gênero feminino têm algo em comum: são mulheres. Nem mais, nem menos umas que as outras.
     Além do mais, desprezo teu respeito apenas no dia de hoje. À nossa luta em nada agrega receber uma rosa no 8 de março anual, e nos outros 364 dias ouvir suas cantadas escrotas e a objetificação sobre meu corpo. O suposto "elogio" pra mim é desrespeito. 
"Destrua a ideia de que homens devem respeitar mulheres porque nós somos suas filhas, mães e irmãs. Reforce a ideia de que homens devem respeitar mulheres porque somos pessoas."



     Na semana destinada a nós, uma vitória aconteceu. O feminicídio foi incluído no Código Penal como homicídio qualificado cuja pena pode variar de 12 a 30 anos - uma punição mais severa, portanto, do que a prevista  para homicídios simples (de 6 a 20 anos).
     O feminicídio é o claro desdobramento da violência de gênero que ainda impera na sociedade. No Brasil, ela atinge em 95% dos casos pessoas do gênero feminino.  Segundo informe de setembro de 2014, da UNICEF, uma em cada dez mulheres foi vítima de estupro até os 20 anos de idade.
     A violência contra a mulher é um problema social de extrema relevância e que atinge todas as etnias, religiões, classes sociais.
     Devemos  essa vitória às nossas militantes feministas e nossas representantes no senado, onde reside outra grande disparidade. Apesar de uma lei instituída em 2009 estabelecer como regra que a vida política no país seja composta por 30% de um publico feminino, dentro do Congresso e das assembleias legislativas  o porcentual chega a metade ou até mesmo um terço do exigido. Somos mais da metade do eleitorado do país, e nossa voz política é ínfima.
     Deixo abaixo o link de outros desdobramentos da aprovação da Lei que inclui o feminicídio como homicídio qualificado, a revolta é forte, mas isso é assunto pra uma próxima.
     Depois de uma boa problematização (ainda que pudesse e falarei de tantas outras desigualdades que cerceiam nossa liberdade), concluo dizendo que: Quero que exista um dia destinado à nossa homenagem, mas também quero que as raízes dessa homenagem e seus porquês sejam divulgados. Quero receber a sua rosa hoje, mas quero receber o seu respeito e igualdade diariamente. Quero ser vista como diferente, mas não por ser mulher, e sim por ser humana. Quero que minha diferença seja valorizada, e não usada como escape para me desqualificar quanto ao gênero que pertenço. Quero que você, homem ou mulher, entre na luta e admita que MUITA coisa está errada. Quero que o passado histórico de nosso país, de caráter explicitamente machista, seja remodelado no presente para que as próximas gerações não sofram o que as passadas sofreram.
     Que nossas bocas nunca se calem, que  nossa luta nunca morra. Que cada criança feminista que está se formando tenha a oportunidade de lutar em um mundo um pouco mais justo, que cada mulher que já travou sua luta possa ver os frutos dela. O direito é nosso. Vamos abrir os olhos daquelas que ainda não enxergaram como a desigualdade as afeta, vamos abrir os olhos daqueles que ainda não perceberam o quanto o machismo nos guia a um retrocesso.
     Mulher, todo dia é seu dia!

Links pra entender melhor:
     Fechamos com Lenine, "Hoje eu canto só você".
     Uma linda luta! Muita luz pra nós!