domingo, 15 de maio de 2016

Se há vagas nas creches da USP, por que a Universidade não as reabre?

     
      Desde o início de 2015, a Universidade de São Paulo impediu o ingresso de novas crianças nas cinco creches pertencentes à instituição. Hoje, pouco mais de um ano depois, inúmeras mães e pais permanecem sem uma vaga para seus filhos (as), sem uma resposta coerente da reitoria e sem uma previsão para a resolução do problema.
Assim que a informação do corte de vagas fora divulgada, poucos dias depois da data para a qual estava prevista a convocação das crianças, a reitoria justificou que, em função do PIVD (Plano de Incentivo a Demissão Voluntária), que demitiu mais de 10% dos funcionários da USP e desfaleceu inúmeros setores de serviço da universidade, não havia estrutura suficiente para receber novas crianças, já que o corpo de trabalhadores estava defasado.

Foto: Comissão Creche Mobilizada
Entretanto, logo depois dessa argumentação, a gestão e os funcionários de cada uma das cinco creches escreveram um documento dizendo qual o número de crianças que poderiam atender, mesmo com o desfalque ocasionado pelo PIVD. Atualmente, esse número corresponde a 140 – ou seja, há 140 vagas ociosas, que não foram ocupadas, disponíveis para receber os filhos de estudantes e funcionárias. Dessa forma, repensasse: qual o real interesse da universidade em não reabrir as vagas? Ou seria melhor dizer: ela tem interesse? 
     Enquanto essa situação, que configura uma falha na assistência social a ser fornecida por uma entidade pública para seus estudantes e um desrespeito aos direitos das mulheres que são mães, se estende, muitas alunas veem, como única alternativa, levar suas crianças para a sala de aula – o que não permite que elas tenham um pleno desempenho no aprendizado e está muito distante de ser uma situação ideal.
       Uma dessas mães é Virginia Benatti, 23, mãe da pequena Maria Flor de dois anos e cinco meses, com quem conversamos para entender ao menos uma parcela das dificuldades que essas mulheres estão enfrentando frente ao descaso da reitoria. Virgínia cursa o sétimo período de Oceanografia. Porém, como ela mesma ressalta: “Com certeza estaria me formando agora”, não fosse a precariedade estabelecida sobre a abertura de vagas.
      A estudante de graduação ficou dois anos afastada das salas de aula por ter que cuidar de sua filha em tempo integral. Em 2014, em função de confusões na troca de informações com a SAS (Superintendência de Assistência Social), ela não conseguira inscrever Maria Flor. No ano seguinte, em 2015, depois de passar por todos os processos, inclusive pela entrevista com a assistente social, Virgínia recebeu a notícia de que 228 vagas seriam fechadas e que, assim, sua filha não entraria para a creche mais uma vez. 
    Nesse período, as únicas crianças que entraram foram aquelas que, sendo filhas de docentes, funcionárias ou alunas, já possuíam um irmão ou irmã dentro da creche. Em 2016, novamente, ingressaram somente irmãos e irmãs de crianças que já estavam na creche, mas, dessa vez, houve um corte adicional: filhos de alunas não entraram. Nas unidades da USP localizadas no interior, houve casos de crianças que entraram por meio de processos judiciais, o que não ocorreu na capital.
      No início do ano, Virgínia resolveu que cursaria apenas três disciplinas – o que já tem se tornado inviável para uma aluna que teve que se ausentar por dois anos das aulas, esquecendo partes consideráveis dos conteúdos, e que tem de cuidar de sua filha mesmo enquanto estuda. O cotidiano está, nitidamente, difícil, mas ela é mais uma mulher de luta: “Não adianta eu ser infeliz e querer fazer minha filha lutar pelos sonhos dela”, diz a estudante. Substancial parte das complicações da vida dela decorre, evidentemente, do descaso para a abertura de vagas.
Famílias e funcionários das creches formaram uma comissão de mobilização que tem organizado ações e atos para reivindicar a abertura das vagas ociosas, porém, até agora, não receberam nenhum retorno da reitoria.
Foto: Comissão Creche Mobilizada

     Essas mães e pais estão, há mais de um ano, sem vagas para suas crianças e o silêncio da universidade indica que esse período se prolongará. Virgínia e outras mães permanecem sendo prejudicadas por uma grave indiferença da entidade pública.
       O fechamento das vagas nas creches configura mais uma das precariedades pelas quais passa a instituição e mais um dos desrespeitos contra a mulher. Violência contra moradoras do CRUSP que não receberam a devida atenção, desvinculação do Hospital Universitário, proibição de festas no campus, terceirização dos bandejões, criminalização e repressão de estudantes e trabalhadores. Qual o modelo de universidade pelo qual se anseia?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Mais intimista do que o normal

                
A imagem que mais gosto e que representa tanto pra mim.
          Estava com uma saudade tremenda de escrever no blog. Mas pensem num ano difícil, turbulento, com decepções e descobertas, e tomado por um  objetivo tão grande (que quiçá se concretizará em breve) que ocupou todas as lacunas da minha vida - certo ou não, foi uma escolha.
                2015 foi um ano complicado pra inúmeros companheiros meus e muito positivo pra outros. Somei dores com as que meus amigos passavam e muitas coisas se tornaram incômodas pra mim, em especial, a infinidade de privilégios dos quais desfrutamos frente a uma maioria do nosso país e como funciona um dos processos pra que alcancemos parte de nossos sonhos: o vestibular.
                Foi um ano em que o que mais me incomodou foi a ansiedade pra seguir os caminhos do meu maior sonho: alcançar a liberdade. Sim, a liberdade. Fora de todo o senso comum que a grande mídia julga ser essa conquista e, principalmente, fora de qualquer preceito raso - falo daquela liberdade do corpo fazer única e exclusivamente o que a alma manda.
                Quem começou a quebrar minhas amarras foi o feminismo, e é ele que planejo ser a base de um futuro repleto de desconstruções. Na soma final e na conclusão de mais um capítulo, podemos dizer que esse foi um ano de muitos ganhos pro movimento (mais do que movimento, ele pode se tornar uma família). Não há Cunha que nos faça retroceder, não há Casa Grande e Senzala que sufoque a força da mulher negra - e são elas que precisam de maior visibilidade em 2016.
                Foi o primeiro ano em que eu pude dizer observar o desenrolar do meu voto na política. Foi quando eu vi o quão fracas as pessoas podem ser em suas opiniões: assim como alguns que tripudiavam sobre Dilma, hoje, são seus maiores admiradores; outros (muitos outros) votaram na defesa do conservadorismo, uns à procura de uma saída pra um cenário que não lhes agrada e outros na tentativa de retroceder e aumentar privilégios.
                O conservadorismo rolou solto, virou protagonista e ganhou aplausos barulhentos - panelaços e passeatas financiadas via Facebook. Mas o triste é: poucos foram os que encontraram o meio termo. Não, meio termo não é sinônimo de ficar em cima do muro. É sinônimo de defender a democracia mas não esquecer dos inúmeros déficits governamentais a serem cobrados pela palavra do povo , por meio de manifestações, por meio do pedido da velha amiga que foi esquecida esse ano: Reforma Política.
                O show de boa qualidade ficou por conta dos secundaristas, da minha geração que me mostrou mais motivos pelos quais lutar e correr atrás.
                Uma virada de ano está longe de mudar nossas vidas do dia pra noite, problemas podem permanecer, assim como alegrias. Mas a vida também pode ser muito mais do que nosso universo particular, precisamos um do outro pelo simples fato de dividirmos aquela que, inclusive, pode muitas vezes desagradar: a sociedade.
                Erro ou acerto, optei por destinar grande parte dos meus sonhos pra ela. Muitos fazem e muitos outros ainda podem fazer isso. O Brasil é, de fato, um país maravilhoso. Maravilhoso só não é aqueles que mandam nele e aquilo que fazem com quem foi privado de voz de ação.
                Perceber a beleza de nosso país pode começar do micro e ir pro macro... Primeiro você olha pras pessoas que escolheu amar e, depois, um simples "bom dia" de um desconhecido na rua pode ser a comprovação que te faltava.
                Se alguém que me leu achou, assim como eu estava achando, que estava sozinho pra mudar e organizar essa bagunça toda, saiba: você não está. Eu estou aqui, assim como várias pessoas estão por aí pra que as encontremos.



                Que, neste ano, nos aconteça aquilo que mais for nos ensinar. Muita luz!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Zonas de conforto: retrocessos

"Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água  nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?"
Mundo Grande - Carlos Drummond de Andrade
                
     Hoje começo dando uma indicação de filme que todos devem ver: "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert e um elenco com Regina Casé e Camila Márdila (que faz a Jéssica, personagem que ganhou meu coração). Não vou perder nosso tempo tentando resumir a história que, dentro de uma linearidade, pode até ser simples mas, quando tratamos da complexidade e da discussão por trás, há muuuito o que digerir. Como brasileiros, temos a obrigação de assistir a obra e aplaudir nosso cinema.
     Assistir ao filme me fez ligar coisas que vinham me incomodando ao longo da semana, e é por isso que hoje venho falar sobre 'zonas de conforto' e do quão perigosas elas são. A Jéssica - aquela personagem que depois que vocês verem o filme vão passar a amar - me tirou de uma zona de conforto.
     Aquela sensação que incomoda, que chega mesmo a te fazer sentir vergonha por ocupar uma posição que, indiretamente, é de opressor. E se não são esses incômodos que nos movem para a frente, é porque nada estamos fazendo.
     Paralelo a isso, nesta semana me deparei com essa imagem, e fiquei feliz por alguém tê-la desenhado:
 
     É sempre bom começar admitindo que TODOS somos individualistas, admita você também. O que nos difere nesse quesito  é o que fazemos pra mudar isso e como mudamos. Tentar alcançar a perfeição é uma verdadeira manivela que nos move pra trás, mas lutar, cotidianamente, pra nos tornarmos seres que respeitam o próximo, que admiram a diferença e que, em especial, não negam a realidade desigual que nos rodeia e querem transformá-la; pode ser a manivela que nos move para a frente.
     Eu acho lindo ver tantos discursos desbravadores, revolucionários e que, inúmeras vezes, me fazem muito pensar nas redes sociais. Discursos de pessoas incomodadas com tantas distorções dos verdadeiros valores humanos na nossa tão moderna e retrógrada sociedade (ambíguo, não? Mas é exatamente assim que a enxergo). Triste mesmo é que são poucas as que chegam no cerne da questão.
     Toda forma de luta é mutante. As lutas avançam paralelas às transformações pelas quais as comunidades passam e mais: elas avançam conforme descobrimos que elas precisam abarcar mais coisas. Então vem o que chamamos de interseccionalidade e o quão relevante ela é.
     As relações raciais sempre estiveram e sempre estarão diretamente relacionadas com todas as questões: de gênero, econômicas, educacionais, criminais etc. A resposta do porquê disso está na história. Somos uma sociedade discriminatória e preconceituosa em suas raízes e, falsear uma inexistente democracia racial é, no mínimo, querer que as coisas continuem como estão.
     Assim sendo, se, dentro do seu "revolucionário" discurso, você não enxerga que o buraco é bem mais embaixo, você está fechando os olhos e jogando muita sujeira pra baixo do tapete.
     Esses dias, li um texto do Leonardo Sakamoto (o qual segue o link abaixo), e uma passagem me chamou atenção: "Violência é manter o silêncio diante da injustiça" - creio que isso caiba muito bem.
     Os casos para exemplificar isso não faltam: é impossível falar da violência policial sem dizer que a enorme maioria da população atingida é a da periferia e negra, assim como é impossível falar de políticas de inclusão educacional sem falar que as melhores universidades públicas do país apresentam um número expressamente menor de negros do que de brancos. Da mesma forma, falar do feminismo sem mostrar que as mulheres negras sofrem, além do machismo que nos cerceia, inúmeras outras formas de preconceito e fetichismos é uma mentira.
     E aqui não quero dizer que sei como é lidar com esse tipo de situação. O protagonismo não é meu, mas não é por isso que me esquivaria e deixaria de reconhecê-lo e apoiá-lo.
     E é por isso e por muito mais que a imagem faz uma crítica construtiva. Porque a grande maioria esquece, ou não quer,  enxergar os problemas que parecem não afetar sua vida diretamente. E como isso é ruim.
     Das manivelas que aqui falamos, essa é mais  uma que nos move pra trás - e pior: que carrega consigo uma sociedade inteira.
     Então eu pergunto: Democracia racial? Balela! E com quantas balelas não convivemos, diariamente, fechando nossos olhos ou nos esquivando de um problema que aparenta não ser nosso quando, acreditem: ele é.
     Por isso e por muito mais que considero essencial carregar o "olhar de presidente" com o qual Val (personagem de Regina Casé) descreve sua filha, Jéssica - um olhar de quem apenas por estar no mundo tem o direito de questioná-lo e de transformá-lo. Agora, enquanto uns possuírem esse direito às custas daqueles que o tem suprimido, tudo estará muito errado. 
     Vamos questionar, vamos questionar muito! Mas, antes disso, vamos tentar e querer que esse direito questionador e transformador seja ampliado.
 Muita luz pra todos nós!
Links:

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Casa-Grande não morreu

"Por isso gosto tanto da imagem do progresso, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos"
Papa Francisco
Hoje não vim falar sobre nada especifico. Tomem o meu o texto como um desabafo.
    Talvez toda essa raiva que observamos nos últimos dias e neste ano seja reflexo de quem somos - leia-se "quem somos" pela sociedade que constituímos, independente de nossas opiniões divergirem ou não da de outras parcelas. Além disso, carrego a certeza de que essa raiva não nasceu agora, este é apenas mais um momento no qual ela é exteriorizada (creio 1964-1985 ter sido o anterior a este).
    Esta raiva sempre esteve e estará presente, ela é reflexo da mentalidade que não aceita não ser ou deixar, por mínimo que seja, de ser o foco dos interesses que guiam o rumo do país no cenário interno e externo. Raiva que vem à tona quando o Brasil pensa em, a passos lentos, ostentar o lema de ser realmente um país para todos.
    Jango viveu isso. Ao lado de todos os trabalhadores e ligas camponesas que apoiavam-no com a esperança de vivenciar as reformas de base, o sonho foi destruído por, como diria o documentário de Camilo Tavares, um dia que durou 21 anos. Vinte e um anos de repressão, de violação dos direitos civis e humanos, de rompimento com a democracia, de apoio de setores da elite brasileira que, até verem a situação atingir seus lucros, acreditaram que aquilo era o melhor para o país.
    Aliás, que sempre acreditaram saber o que era melhor para o país. Porque aqui no Brasil é assim: miscigenação e povo trabalhador? Apenas quando nos convém. Quem manda mesmo é a elite branca - a casa grande não morreu não, ela está vivinha vivinha.
    O discurso de ódio manifesta-se mais uma vez e pasmem (ou não): ele pede o retorno destes vinte e um anos. Quem foi às ruas, no último domingo, munido de seus argumentos chulos e de sua precariedade no conhecimento histórico, não quer saber o que é melhor para o país. Quer saber o que é melhor para si mesmo.
    Já me peguei pensando muitas vezes nos perigos de generalizar ao vincular a elite retrógrada brasileira a estas manifestações. Mas, agora, não mais. A classe média sai nas ruas, mas os interesses por trás de tudo não são seus. E digo mais: algum dia já foram? Porque no pouco que eu sei e no que li, pra mim é claro que ela sempre fora usada como massa de manobra que, na ilusão de adquirir poder de compra e "status" social, idealizava que o país vivia momentos de prosperidade, quando a crise era iminente - valha-se de exemplo o governo JK.
    O suposto interesse por optar pelo avanço do país é tão falho que, na mesma semana em que ouve a chacina que matou 18 pessoas em Osasco e Barueri, o tema não foi tratado pelos manifestantes. Excluso porque o que acontece na periferia deve ficar na periferia.


    Sair nas ruas clamando por mudanças sem sustentamento plausível, com base em discursos recheados de sexismo e ignorância é visto como "cumprimento de seu papel de cidadão" - foi o que uma cidadã disse em entrevista ao Jornalistas Livres. Agora, quando o preto pobre revolta-se com a sua situação de marginalidade social; quando a mulher sai às ruas na luta diária pelo fim da violência; quando o homossexual revolta-se contra o preconceito e os tabus sociais; ou quando sem-terra luta pela reforma agrária e pelo fim de tamanha concentração fundiária, eles estão se "vitimizando" e fazendo baderna. Haja incoerência.
    E não há outra palavra que descreva o que vimos, foi a raiva. Raiva ao ver um negro estudando na mesma universidade que seu filho, raiva ao ver o pobre usando, a custo de muitas parcelas, o mesmo aeroporto que você; raiva ao ver uma mulher na presidência, raiva ao ver um líder dos trabalhadores no partido que está no governo. Raiva por tudo que não é convencional, porque a sociedade ocidental, apesar de ser considerada o maior parâmetro do avanço, preza pela tradição e pela "ordem".
    Todo esse cenário é entristecedor. Por isso escolhi a frase do Papa para iniciar meu texto. Mais uma vez, ele nos surpreende com a sua capacidade de ler o que nos tornamos e nos fazer refletir sobre os perigos daquilo que poderemos nos tornar. Há tantas lutas para adquirir, há tanto o que semear. Basta olhar para o todo, e não só pra você.
    É, gente, tem muita coisa errada. Muita mesmo. Mas ainda há tempo. Basta querer pertencer a algo diferente. Basta, como já dizia Kant, romper com essa situação de "minoridade social" que nos impede de pensar e andar com os próprios pés. Que nos faz atribuir tudo a ícones em nossa vida,  quando, na verdade, a realidade bate na porta ao lado e você que não quer enxergar.
Vamos continuar acompanhando tudo o que acontece - nunca perdamos o senso crítico. É ele que fará com que a nossa geração deixe uma consciência histórica da qual parecem carecer tantos hoje em dia.
Muita paz e esperança!

Um link que nos ajuda a entender:
Deixo aqui uma música que gosto muito e permite diversas interpretações. Hoje, eu já tenho a minha.




quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ideologia de gênero: educação que liberta

"Nós agimos como se ser homem ou ser uma mulher fosse, na verdade, uma realidade interna ou algo que simplesmente é uma verdade sobre nós, um fato sobre nós. Na verdade, trata-se de um fenômeno que tem sido produzido todo o tempo, e reproduzido todo o tempo. Então, dizer que o gênero é performativo é dizer que ninguém pertence a um gênero desde sempre"
                                         Judith Butler 

   Como muitos dizem por aí, os últimos dias estão sendo difíceis para aqueles que carregam consigo valores conservadores e arcaicos quando o quesito são direitos sociais. Dessa forma, festejemos.
    Entretanto, que toda a festança venha acompanhada pela abertura de novos debates, pela problematização de inúmeras carências sociais e pela desconstrução do complexo de vira-latas arraigado em nossa sociedade e que não comporta sentido algum - se é que um dia comportou. Como disse a atriz Marieta Severo em entrevista ao programa "Domingão do Faustão": "Não somos o país da desesperança".
    Vivenciamos a sociedade do mascaramento. Abolimos a escravidão há mais de um século, mas, ainda nos dias de hoje, convivemos com denúncias de trabalho compulsório, com a idealização da inexistente democracia racial e com a grande distância que separa negros e brancos nos diferentes cenários de nosso país. Elevamos a expectativa de vida em nossa comunidade, mas negligenciamos a velhice e jogamos para baixo do tapete toda a sujeira quando o assunto são os direitos negados aos idosos. Abandonamos a infância e, ao invés de discussões que protagonizem as melhorias e transformações na educação, assistimos à votação pela redução da maioridade penal e à sórdida manobra de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para aprová-la.
    Nos orgulhamos por legalizar o casamento homoafetivo há cerca de dois anos, mas dividimos palco com uma série de desigualdades fundamentadas na construção do papel de gênero - tema que, quando discutido, apresenta-se velado por uma série de tabus e desconhecimento social. Enquanto fecharmos os olhos para as agressões físicas e morais, para as imposições comportamentais, para as barreiras construídas e que impedem a plena atuação de grupos marginalizados em nossa sociedade, o real avanço passará longe. E é esse o ponto no qual queria chegar: está mais do que na hora de discutirmos ideologia de gênero.
    Compartilhamos o meio social com gerações que trazem valores machistas e desiguais arraigados em sua educação. O preocupante é acompanharmos novas gerações que perpetuam tais valores e pior: que, em sua grande maioria, não movem um dedo para desconstruí-los. É inegável que nossos valores pessoais são construídos ainda em nossa infância. Assim, nada mais evidente do que promover mudanças no ensino em prol dos avanços. Ninguém nasce machista, racista ou xenófobo. Todas as formas de preconceito são construções sociais e não algo intrínseco ao ser humano.
    Desmistificar os papeis de gênero desde a infância é a saída para a existência de cidadãos que usufruam da sua plena liberdade de escolha e que não julguem as opções de seus companheiros.
    Atualmente, somos representados por um Congresso extremamente conservador, retrógrado e que não acompanha os avanços da sociedade como uma verdadeira democracia estabelece. Nas menores instâncias políticas, a situação não é diferente. Frente às votações municipais para o Plano Nacional de Educação, foi possível observar a maciça campanha contra o estabelecimento da Ideologia de Gênero nas escolas. A ausência de conhecimento da enorme maioria dos cidadãos acerca dos benefícios que tal mudança comportaria colaborou para que muitos se posicionassem contra - bombardeados de argumentos que se fundamentavam na justificativa de que ela acabaria com a "família tradicional brasileira" (sobre a qual mantenho minhas dúvidas acerca da real existência). O problema grita: as pessoas não sabem sobre o que estão discutindo.
    Em discurso na Câmara, o deputado Jean Wyllys, como é de costume, disse uma grande verdade: a desonestidade intelectual da política brasileira quando o assunto é a pluralidade humana e uma educação verdadeiramente libertária é algo preocupante.
    Àqueles que já enxergaram a relevância da desmitificação do papel de gênero: vamos propagar nossa opinião, expor argumentos e lutar, dos pequenos aos vastos âmbitos, para que as barreiras sejam desconstruídas.
    Àqueles que, ainda desconfiados, mas que prezem por uma sociedade mais justa e igualitária: a ideologia de gênero não entra em cena para influir nas escolhas e orientação sexuais dos jovens, muito menos para impor comportamentos ou caracterizações. Luta-se pela liberdade de escolha do indivíduo e pelo fim da performatividade de gênero que impera em nossa sociedade. Nosso sexo não dita quem somos.
Alguns links para entender melhor:
Quando tiverem um tempo, assistam a esse vídeo!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Brasil: não usemos eufemismos

    Logo aviso sobre a certeza de que discorrerei acerca de mais temas do que o previsto... hoje estou mais falante do que o normal. Ainda assim, o principal problema - que vem rondando minha mente há um bom tempo - é como a culpabilização da instância política federal como única responsável por inúmeros déficits e precariedades que existem em nosso país funciona como válvula de escape à preguiça, ou mesmo à falta de interesse da maioria dos cidadãos em defender uma ideia e buscar as reais causas e soluções para as problemáticas sociais.

    Greve dos professores, Eduardo Cunha, cobertura do terremoto no Nepal, exposição e agressão à Verônica, terceirização, morte de migrantes no Mar Mediterrâneo, maioridade penal, assassinato de mais um jovem negro pelas mãos de um policial e consequentes protestos em Baltimore... Ufa! Cada dia em que ligamos a tv ou abrimos o Facebook, nossos olhos se deparam com mais uma notícia para discutir. E não. Infelizmente, na grande maioria das vezes, elas não são boas.
    O Facebook sofreu e vem sofrendo uma transformação  na qual deixa de ser uma mera rede social onde expomos nossas vidas particulares e passa a ser centro de muitas discussões e debates - alguns de menor, outros de maior relevância. Ainda assim, observamos a ascensão do pensamento crítico e compartilhamento de ideias entre aqueles que se dispõe a tentar enxergar um novo ponto de vista e expor o seu.
    Junto com algo que, sob meu olhar, pode ser considerado positivo, é gritante a existência daqueles que se aproveitam do anonimato e escondem-se atrás da tela para propagar opiniões de cunho sexista, racista, xenófobo, homofóbico, preconceituoso. Isso me assusta! E o simples ato de bloquear o indivíduo de nossas páginas não diz que anularemos sua existência ou que impediremos que ele continue a propagar as mesmas ideias por ai.
    Eu sempre acreditei que a história teria como uma de suas funções fazer com que os erros cometidos no passado não fossem repetidos no presente, e isso - longe de ser um senso comum repetido quando somos questionados sobre "qual o papel da história" - deveria ser a realidade. Porém, a gente sabe que não é assim.
    A última geração tem assistido à ascensão de partidos de extrema direita no cenário europeu - que mais do que defenderem uma forma de atuação política e econômica, perpetuam um discurso de ódio aos imigrantes. Aqui no Brasil, a situação não é melhor. E acho um grande eufemismo dizer que não podemos comparar a situação de nosso país à de demais nações mundiais. Ainda que vivenciemos e já tenhamos conquistado muitos avanços, a coisa aqui está feia.
    Defender a volta da Ditadura Militar? Contar com um presidente da Câmara dos Deputados que usa das defesas mais sórdidas para atacar e diminuir significativamente os direitos conquistados por trabalhadores desde a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) do governo Vargas e que tem a coragem de dizer que a legalização do aborto só será realizada "por cima do seu cadáver" em um país onde milhares de mulheres morrem anualmente por conta do aborto ilegal? Assistir ao uso de violência policial contra os professores que estão em greve em busca de direitos legítimos que não lhes são fornecidos e lutando contra a precarização de sua previdência social e ainda ler a declaração do governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin,  dizendo que "não há greve alguma"?
    A negativa de que nossa situação está muito ruim é, no mínimo, comodidade daqueles que não têm seu padrão de vida e seu dia a dia diretamente afetados pelos direitos suprimidos, em especial, das camadas mais marginalizadas da sociedade; e também uma forma de fechar os olhos para o país que  temos o dever de modificar, para a política que temos o dever de reformar, e para o seu papel de cidadão que é SEU dever cumprir.
    Ao mesmo passo, a incapacidade de muitos em avançar numa real discussão ao invés de apenas responsabilizar o governo petista e a Presidenta Dilma Rousseff por todos os problemas que assolam a sociedade -  ao invés de enxergar a formação histórica do Brasil como um Estado majoritariamente governado pelas elites econômicas - não colabora para que ampliemos o debate e possamos, quem sabe, a  cada compartilhamento de ideias, tornar-nos mais atuantes socialmente e disseminadores de pensamentos que visem um real avanço social e que proporcionem mudanças através da luta legítima que uma democracia porta.
    Toda discussão que vise problematizar a atual situação político-social brasileira deve fomentar o debate sobre a nossa grande - e vergonhosa - mídia. Aliás, esse foi o tema do primeiro texto que publiquei aqui no blog há quatro meses. Há quatro meses, minha opinião poderia ser expressa novamente, como se os dias e a revolta se repetissem. Como já mencionei mais de uma vez, sou defensora da liberdade de expressão e da manutenção das liberdades midiáticas. Apesar disso, meus olhos enxergam nitidamente como nossa mídia, da forma mais suja possível, não cumpre o real papel da comunicação e atua, indiscutivelmente, como formadora de opinião.
    Fazendo um paralelo com  as coberturas midiáticas do início deste ano, da mesma forma que observamos inúmeras matérias sobre o ataque à sede do jornal francês Charlie Hebdo e um destaque ínfimo às mais de 2000 vítimas nigerianas no ataque do grupo extremista Boko Haram à cidade de Baga; hoje, somos espectadores de um horário nobre que aproveita-se da tragédia nepalês e não apresenta sequer uma cobertura que retrate a realidade vivenciada pela classe de professores que foi às ruas do Paraná reivindicar seus direitos e sofreu a repressão de uma polícia que não defende, que não preserva, mas que abusa do poder e violenta (ao final, dos cerca de 200 feridos, 63 foram encaminhados para hospitais).

    Antes de julgar aqueles que deixam-se usar como massa de manobra, acho relevante rememorar que grande parte dos cidadãos têm a televisão como único veículo de informação - muitos porque seu lugar na sociedade não lhes permite almejar uma maior intelectualidade. Também devemos lembrar que a população brasileira convive com a carência de educação política. Dessa forma, o que pra mim ou pra você pode parecer um absurdo e uma grande manipulação dos fatos, para a grande maioria configurasse como mais uma notícia cotidiana  sendo retratada em sua íntegra.
    Os veículos de informação televisivos adquiriram uma força e atuação de dimensões tão grandes em nosso país, a ponto de serem considerados decisivos nas decisões políticas nacionais. Não seria isso preocupante? Eduardo Cunha, nosso excelentíssimo presidente da Câmara, em resposta à manifestação de um homem contra a comemoração dos 50 anos da Rede Globo, argumentando que ela teria apoiado a Ditadura Militar (o que, comprovadamente, é verdade); alegou que a emissora foi e é de extrema importância para a existência e continuidade da democracia no Brasil. Ao que devemos nos atentar? A Rede Globo, basicamente, não exibiu coberturas ou explicações sobre as manifestações populares e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) contra o projeto de emenda constitucional que legitima a terceirização para todas as atividades-fim e que foi proposto pelo político.

    Outra demonstração da força das emissoras de tv é o fato de que a Comissão Especial da Câmara dos Deputados designada para discutir a PEC 171/93, que propõe a redução da maioridade penal, convocará os jornalistas Marcelo Rezende, José Luiz Datena, Rachel Sheherazade e Caco Barcellos para uma audiência pública sobre o tema.
    Enquanto muito me questionava o motivo pra isso, eis que me deparo com a resposta do deputado André Moura (PSC-SE): “Todos eles são formadores de opinião e todos eles, nos seus programas, nas suas matérias, sempre trazem a discussão da redução da maioridade penal. Como eles conhecem a realidade, entendo que seria bom trazer a opinião deles sobre o tema na comissão". Pois bem, o que aguardar de um país onde jornalistas reacionárias, preconceituosas e disseminadoras do ódio, como Rachel Sheherazade, são convidadas para dissertar opiniões em um projeto discutido na instância federal?
    A comodidade de ser um ser não pensante nos atrasa. Ninguém sozinho muda um mundo, ninguém sozinho com sua revolta proporciona uma grande transformação social. Mas tudo começa com o incômodo... E enquanto permanecemos sentados esperando que um problema bata em nossa porta e influêncie em nossas vidas, o mundo continua e discursos como o do papa Francisco, realizado na ilha de Lampedusa em 2013, criticando o fato de vivenciarmos a chamada "globalização da indiferença", continua a fazer todo o sentido.

Alguns links:

Por hoje é isso! Espero que gostem e que muitos compartilhem um pouco da minha opinião...
Muita luz!

domingo, 8 de março de 2015

Todo dia é nosso dia!

Não vou ficar em silêncio. 
     Foram muitas as guerreiras feministas que conviveram em minha mente durante essa semana. Ao final, eu decidi falar da Maria X.
     "Maria X nascera na periferia de São Paulo, bairro pobre no qual, apesar das mínimas interferências governamentais, a violência ainda imperava. Começou a trabalhar cedo, já que a mãe não tinha condições de sustentar sozinha os seis filhos, e o pai as abandonara após o nascimento do último - alegando que a mulher não era mais "apresentável" e que ele merecia "coisa melhor".
     Depois de bater em muitas portas, Maria X conseguiu emprego em um  casarão da parte nobre da grande metrópole. Quarto de empregada e alimentação diária que garantiriam menos uma boca para comer na mesa de sua família. Além do mais, ao final do mês, poderia contribuir com as despesas da casa.
     Na labuta diária, no cansaço corporal, X ainda encontrava tempo para sorrir com a mínima ascensão que  sua vida vivenciava. Sorriso efêmero esse, que durou até o patrão descobrir a beleza da "empregadinha" que sua mulher contratara.
     Os abusos foram muitos até que ela sentira os primeiros enjoos. Será que fora a comida do dia anterior? Pobre Maria... Tão cedo saíra de casa que  nem as malícias da vida tivera aprendido. Mas o patrão não queria saber de filho bastardo na sua residência. A promoção no ministério estava por vir, e nada poderia manchar a imagem da família perfeita que construíra.
     Pois é... A única alternativa viável era o tal do "aborto", que ela pouco conhecia. Dele, só sabia que aquelas que na sua  comunidade se submeteram, morreram logo em seguida. Mas X não queria morrer. A vida gritava dentro dela.
     A sentença do patrão foi simples (e acompanhada de "leves" agressões, morais e físicas): ou aborta ou vai embora. Maria foi.
     Hoje, reside na mesma periferia da qual saiu. Seu filho não possui o pai que  ela também não possuiu. E ainda há quem diga que a culpa foi dela: "empregadinha safada e interesseira". Sua história não foi merecedora de capa de jornal, de narrações literárias ou de uma biografia. Mas a luta de Maria X continua."
     Você conhece Maria X? Eu tenho certeza que sim. Você já esbarrou com a Maria X? Eu garanto que sim.
     Quer saber o que mais me motivou a falar dela? Maria escapou de uma triste realidade. Se tivesse abortado, provavelmente, seria mais uma vítima da triste realidade do nosso país, onde uma mulher morre dia sim, dia não, em decorrência do aborto ilegal.
     Já  passou da hora de debatermos o aborto não como uma questão individual da essência de cada indivíduo, mas sim como um problema social que estrutura uma indústria lucrativa no Brasil as custas da vida de nossas mulheres. Está mais do que na hora de compreender que ser a favor da sua legalização não significa considerar a prática do abordo algo "legal" ou "bacana", que, ao abortar, uma mulher não sentirá orgulho ou prazer, que ser contra  sua prática não significa ser "pró-vida" mas  sim que esse é um direito que deve ser garantido às mulheres e que trará, sem dúvidas, avanços positivos pro país.
     Mas por que começar falando disso? É simples.
     O Dia Internacional das Mulheres chega e nossa sociedade, guiada pelos princípios capitalistas, teima em criar propagandas emocionantes - que valorizam, muitas vezes, o papel "mulher moderna" e a jornada tripla feminina - mas que, dificilmente, contextualizam os nossos problemas e que, raríssimas vezes, valorizam todo "tipo de mulher". Oras, não nos fechemos só a isso. Hoje o dia é da homenagem mas também da discussão!
     Aliás, você sabe a história do dia das mulheres? Sabe o por quê de termos um dia do ano supostamente reservado em prol da nossa homenagem? (Se a reposta é não, leia o link que deixei aqui no final.) Se a resposta é sim, temos que concordar que,  mais uma vez, a nossa luta se fez presente.
     Pode parecer redundante, pode soar repetitivo, pode até (para os mais conservadores) ser muito utópico, mas está aqui o que nós queremos: respeito. Acontece que a visão desse respeito está muito deturpada. Respeito não significa apenas você fechar sua boca e calar seus pensamentos machistas (também, obviamente). Mas por respeito entendemos  tratar-nos como sua semelhante e merecedoras dos mesmos direitos, indiferentemente de nossas escolhas.
     A prostituta, a estudiosa, a dona de casa, aquela que você mais admira e mesmo aquelas que, nascidas com o sexo masculino, sentem-se pertencentes ao gênero feminino têm algo em comum: são mulheres. Nem mais, nem menos umas que as outras.
     Além do mais, desprezo teu respeito apenas no dia de hoje. À nossa luta em nada agrega receber uma rosa no 8 de março anual, e nos outros 364 dias ouvir suas cantadas escrotas e a objetificação sobre meu corpo. O suposto "elogio" pra mim é desrespeito. 
"Destrua a ideia de que homens devem respeitar mulheres porque nós somos suas filhas, mães e irmãs. Reforce a ideia de que homens devem respeitar mulheres porque somos pessoas."



     Na semana destinada a nós, uma vitória aconteceu. O feminicídio foi incluído no Código Penal como homicídio qualificado cuja pena pode variar de 12 a 30 anos - uma punição mais severa, portanto, do que a prevista  para homicídios simples (de 6 a 20 anos).
     O feminicídio é o claro desdobramento da violência de gênero que ainda impera na sociedade. No Brasil, ela atinge em 95% dos casos pessoas do gênero feminino.  Segundo informe de setembro de 2014, da UNICEF, uma em cada dez mulheres foi vítima de estupro até os 20 anos de idade.
     A violência contra a mulher é um problema social de extrema relevância e que atinge todas as etnias, religiões, classes sociais.
     Devemos  essa vitória às nossas militantes feministas e nossas representantes no senado, onde reside outra grande disparidade. Apesar de uma lei instituída em 2009 estabelecer como regra que a vida política no país seja composta por 30% de um publico feminino, dentro do Congresso e das assembleias legislativas  o porcentual chega a metade ou até mesmo um terço do exigido. Somos mais da metade do eleitorado do país, e nossa voz política é ínfima.
     Deixo abaixo o link de outros desdobramentos da aprovação da Lei que inclui o feminicídio como homicídio qualificado, a revolta é forte, mas isso é assunto pra uma próxima.
     Depois de uma boa problematização (ainda que pudesse e falarei de tantas outras desigualdades que cerceiam nossa liberdade), concluo dizendo que: Quero que exista um dia destinado à nossa homenagem, mas também quero que as raízes dessa homenagem e seus porquês sejam divulgados. Quero receber a sua rosa hoje, mas quero receber o seu respeito e igualdade diariamente. Quero ser vista como diferente, mas não por ser mulher, e sim por ser humana. Quero que minha diferença seja valorizada, e não usada como escape para me desqualificar quanto ao gênero que pertenço. Quero que você, homem ou mulher, entre na luta e admita que MUITA coisa está errada. Quero que o passado histórico de nosso país, de caráter explicitamente machista, seja remodelado no presente para que as próximas gerações não sofram o que as passadas sofreram.
     Que nossas bocas nunca se calem, que  nossa luta nunca morra. Que cada criança feminista que está se formando tenha a oportunidade de lutar em um mundo um pouco mais justo, que cada mulher que já travou sua luta possa ver os frutos dela. O direito é nosso. Vamos abrir os olhos daquelas que ainda não enxergaram como a desigualdade as afeta, vamos abrir os olhos daqueles que ainda não perceberam o quanto o machismo nos guia a um retrocesso.
     Mulher, todo dia é seu dia!

Links pra entender melhor:
     Fechamos com Lenine, "Hoje eu canto só você".
     Uma linda luta! Muita luz pra nós!