domingo, 15 de maio de 2016

Se há vagas nas creches da USP, por que a Universidade não as reabre?

     
      Desde o início de 2015, a Universidade de São Paulo impediu o ingresso de novas crianças nas cinco creches pertencentes à instituição. Hoje, pouco mais de um ano depois, inúmeras mães e pais permanecem sem uma vaga para seus filhos (as), sem uma resposta coerente da reitoria e sem uma previsão para a resolução do problema.
Assim que a informação do corte de vagas fora divulgada, poucos dias depois da data para a qual estava prevista a convocação das crianças, a reitoria justificou que, em função do PIVD (Plano de Incentivo a Demissão Voluntária), que demitiu mais de 10% dos funcionários da USP e desfaleceu inúmeros setores de serviço da universidade, não havia estrutura suficiente para receber novas crianças, já que o corpo de trabalhadores estava defasado.

Foto: Comissão Creche Mobilizada
Entretanto, logo depois dessa argumentação, a gestão e os funcionários de cada uma das cinco creches escreveram um documento dizendo qual o número de crianças que poderiam atender, mesmo com o desfalque ocasionado pelo PIVD. Atualmente, esse número corresponde a 140 – ou seja, há 140 vagas ociosas, que não foram ocupadas, disponíveis para receber os filhos de estudantes e funcionárias. Dessa forma, repensasse: qual o real interesse da universidade em não reabrir as vagas? Ou seria melhor dizer: ela tem interesse? 
     Enquanto essa situação, que configura uma falha na assistência social a ser fornecida por uma entidade pública para seus estudantes e um desrespeito aos direitos das mulheres que são mães, se estende, muitas alunas veem, como única alternativa, levar suas crianças para a sala de aula – o que não permite que elas tenham um pleno desempenho no aprendizado e está muito distante de ser uma situação ideal.
       Uma dessas mães é Virginia Benatti, 23, mãe da pequena Maria Flor de dois anos e cinco meses, com quem conversamos para entender ao menos uma parcela das dificuldades que essas mulheres estão enfrentando frente ao descaso da reitoria. Virgínia cursa o sétimo período de Oceanografia. Porém, como ela mesma ressalta: “Com certeza estaria me formando agora”, não fosse a precariedade estabelecida sobre a abertura de vagas.
      A estudante de graduação ficou dois anos afastada das salas de aula por ter que cuidar de sua filha em tempo integral. Em 2014, em função de confusões na troca de informações com a SAS (Superintendência de Assistência Social), ela não conseguira inscrever Maria Flor. No ano seguinte, em 2015, depois de passar por todos os processos, inclusive pela entrevista com a assistente social, Virgínia recebeu a notícia de que 228 vagas seriam fechadas e que, assim, sua filha não entraria para a creche mais uma vez. 
    Nesse período, as únicas crianças que entraram foram aquelas que, sendo filhas de docentes, funcionárias ou alunas, já possuíam um irmão ou irmã dentro da creche. Em 2016, novamente, ingressaram somente irmãos e irmãs de crianças que já estavam na creche, mas, dessa vez, houve um corte adicional: filhos de alunas não entraram. Nas unidades da USP localizadas no interior, houve casos de crianças que entraram por meio de processos judiciais, o que não ocorreu na capital.
      No início do ano, Virgínia resolveu que cursaria apenas três disciplinas – o que já tem se tornado inviável para uma aluna que teve que se ausentar por dois anos das aulas, esquecendo partes consideráveis dos conteúdos, e que tem de cuidar de sua filha mesmo enquanto estuda. O cotidiano está, nitidamente, difícil, mas ela é mais uma mulher de luta: “Não adianta eu ser infeliz e querer fazer minha filha lutar pelos sonhos dela”, diz a estudante. Substancial parte das complicações da vida dela decorre, evidentemente, do descaso para a abertura de vagas.
Famílias e funcionários das creches formaram uma comissão de mobilização que tem organizado ações e atos para reivindicar a abertura das vagas ociosas, porém, até agora, não receberam nenhum retorno da reitoria.
Foto: Comissão Creche Mobilizada

     Essas mães e pais estão, há mais de um ano, sem vagas para suas crianças e o silêncio da universidade indica que esse período se prolongará. Virgínia e outras mães permanecem sendo prejudicadas por uma grave indiferença da entidade pública.
       O fechamento das vagas nas creches configura mais uma das precariedades pelas quais passa a instituição e mais um dos desrespeitos contra a mulher. Violência contra moradoras do CRUSP que não receberam a devida atenção, desvinculação do Hospital Universitário, proibição de festas no campus, terceirização dos bandejões, criminalização e repressão de estudantes e trabalhadores. Qual o modelo de universidade pelo qual se anseia?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Mais intimista do que o normal

                
A imagem que mais gosto e que representa tanto pra mim.
          Estava com uma saudade tremenda de escrever no blog. Mas pensem num ano difícil, turbulento, com decepções e descobertas, e tomado por um  objetivo tão grande (que quiçá se concretizará em breve) que ocupou todas as lacunas da minha vida - certo ou não, foi uma escolha.
                2015 foi um ano complicado pra inúmeros companheiros meus e muito positivo pra outros. Somei dores com as que meus amigos passavam e muitas coisas se tornaram incômodas pra mim, em especial, a infinidade de privilégios dos quais desfrutamos frente a uma maioria do nosso país e como funciona um dos processos pra que alcancemos parte de nossos sonhos: o vestibular.
                Foi um ano em que o que mais me incomodou foi a ansiedade pra seguir os caminhos do meu maior sonho: alcançar a liberdade. Sim, a liberdade. Fora de todo o senso comum que a grande mídia julga ser essa conquista e, principalmente, fora de qualquer preceito raso - falo daquela liberdade do corpo fazer única e exclusivamente o que a alma manda.
                Quem começou a quebrar minhas amarras foi o feminismo, e é ele que planejo ser a base de um futuro repleto de desconstruções. Na soma final e na conclusão de mais um capítulo, podemos dizer que esse foi um ano de muitos ganhos pro movimento (mais do que movimento, ele pode se tornar uma família). Não há Cunha que nos faça retroceder, não há Casa Grande e Senzala que sufoque a força da mulher negra - e são elas que precisam de maior visibilidade em 2016.
                Foi o primeiro ano em que eu pude dizer observar o desenrolar do meu voto na política. Foi quando eu vi o quão fracas as pessoas podem ser em suas opiniões: assim como alguns que tripudiavam sobre Dilma, hoje, são seus maiores admiradores; outros (muitos outros) votaram na defesa do conservadorismo, uns à procura de uma saída pra um cenário que não lhes agrada e outros na tentativa de retroceder e aumentar privilégios.
                O conservadorismo rolou solto, virou protagonista e ganhou aplausos barulhentos - panelaços e passeatas financiadas via Facebook. Mas o triste é: poucos foram os que encontraram o meio termo. Não, meio termo não é sinônimo de ficar em cima do muro. É sinônimo de defender a democracia mas não esquecer dos inúmeros déficits governamentais a serem cobrados pela palavra do povo , por meio de manifestações, por meio do pedido da velha amiga que foi esquecida esse ano: Reforma Política.
                O show de boa qualidade ficou por conta dos secundaristas, da minha geração que me mostrou mais motivos pelos quais lutar e correr atrás.
                Uma virada de ano está longe de mudar nossas vidas do dia pra noite, problemas podem permanecer, assim como alegrias. Mas a vida também pode ser muito mais do que nosso universo particular, precisamos um do outro pelo simples fato de dividirmos aquela que, inclusive, pode muitas vezes desagradar: a sociedade.
                Erro ou acerto, optei por destinar grande parte dos meus sonhos pra ela. Muitos fazem e muitos outros ainda podem fazer isso. O Brasil é, de fato, um país maravilhoso. Maravilhoso só não é aqueles que mandam nele e aquilo que fazem com quem foi privado de voz de ação.
                Perceber a beleza de nosso país pode começar do micro e ir pro macro... Primeiro você olha pras pessoas que escolheu amar e, depois, um simples "bom dia" de um desconhecido na rua pode ser a comprovação que te faltava.
                Se alguém que me leu achou, assim como eu estava achando, que estava sozinho pra mudar e organizar essa bagunça toda, saiba: você não está. Eu estou aqui, assim como várias pessoas estão por aí pra que as encontremos.



                Que, neste ano, nos aconteça aquilo que mais for nos ensinar. Muita luz!