segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Zonas de conforto: retrocessos

"Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água  nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?"
Mundo Grande - Carlos Drummond de Andrade
                
     Hoje começo dando uma indicação de filme que todos devem ver: "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert e um elenco com Regina Casé e Camila Márdila (que faz a Jéssica, personagem que ganhou meu coração). Não vou perder nosso tempo tentando resumir a história que, dentro de uma linearidade, pode até ser simples mas, quando tratamos da complexidade e da discussão por trás, há muuuito o que digerir. Como brasileiros, temos a obrigação de assistir a obra e aplaudir nosso cinema.
     Assistir ao filme me fez ligar coisas que vinham me incomodando ao longo da semana, e é por isso que hoje venho falar sobre 'zonas de conforto' e do quão perigosas elas são. A Jéssica - aquela personagem que depois que vocês verem o filme vão passar a amar - me tirou de uma zona de conforto.
     Aquela sensação que incomoda, que chega mesmo a te fazer sentir vergonha por ocupar uma posição que, indiretamente, é de opressor. E se não são esses incômodos que nos movem para a frente, é porque nada estamos fazendo.
     Paralelo a isso, nesta semana me deparei com essa imagem, e fiquei feliz por alguém tê-la desenhado:
 
     É sempre bom começar admitindo que TODOS somos individualistas, admita você também. O que nos difere nesse quesito  é o que fazemos pra mudar isso e como mudamos. Tentar alcançar a perfeição é uma verdadeira manivela que nos move pra trás, mas lutar, cotidianamente, pra nos tornarmos seres que respeitam o próximo, que admiram a diferença e que, em especial, não negam a realidade desigual que nos rodeia e querem transformá-la; pode ser a manivela que nos move para a frente.
     Eu acho lindo ver tantos discursos desbravadores, revolucionários e que, inúmeras vezes, me fazem muito pensar nas redes sociais. Discursos de pessoas incomodadas com tantas distorções dos verdadeiros valores humanos na nossa tão moderna e retrógrada sociedade (ambíguo, não? Mas é exatamente assim que a enxergo). Triste mesmo é que são poucas as que chegam no cerne da questão.
     Toda forma de luta é mutante. As lutas avançam paralelas às transformações pelas quais as comunidades passam e mais: elas avançam conforme descobrimos que elas precisam abarcar mais coisas. Então vem o que chamamos de interseccionalidade e o quão relevante ela é.
     As relações raciais sempre estiveram e sempre estarão diretamente relacionadas com todas as questões: de gênero, econômicas, educacionais, criminais etc. A resposta do porquê disso está na história. Somos uma sociedade discriminatória e preconceituosa em suas raízes e, falsear uma inexistente democracia racial é, no mínimo, querer que as coisas continuem como estão.
     Assim sendo, se, dentro do seu "revolucionário" discurso, você não enxerga que o buraco é bem mais embaixo, você está fechando os olhos e jogando muita sujeira pra baixo do tapete.
     Esses dias, li um texto do Leonardo Sakamoto (o qual segue o link abaixo), e uma passagem me chamou atenção: "Violência é manter o silêncio diante da injustiça" - creio que isso caiba muito bem.
     Os casos para exemplificar isso não faltam: é impossível falar da violência policial sem dizer que a enorme maioria da população atingida é a da periferia e negra, assim como é impossível falar de políticas de inclusão educacional sem falar que as melhores universidades públicas do país apresentam um número expressamente menor de negros do que de brancos. Da mesma forma, falar do feminismo sem mostrar que as mulheres negras sofrem, além do machismo que nos cerceia, inúmeras outras formas de preconceito e fetichismos é uma mentira.
     E aqui não quero dizer que sei como é lidar com esse tipo de situação. O protagonismo não é meu, mas não é por isso que me esquivaria e deixaria de reconhecê-lo e apoiá-lo.
     E é por isso e por muito mais que a imagem faz uma crítica construtiva. Porque a grande maioria esquece, ou não quer,  enxergar os problemas que parecem não afetar sua vida diretamente. E como isso é ruim.
     Das manivelas que aqui falamos, essa é mais  uma que nos move pra trás - e pior: que carrega consigo uma sociedade inteira.
     Então eu pergunto: Democracia racial? Balela! E com quantas balelas não convivemos, diariamente, fechando nossos olhos ou nos esquivando de um problema que aparenta não ser nosso quando, acreditem: ele é.
     Por isso e por muito mais que considero essencial carregar o "olhar de presidente" com o qual Val (personagem de Regina Casé) descreve sua filha, Jéssica - um olhar de quem apenas por estar no mundo tem o direito de questioná-lo e de transformá-lo. Agora, enquanto uns possuírem esse direito às custas daqueles que o tem suprimido, tudo estará muito errado. 
     Vamos questionar, vamos questionar muito! Mas, antes disso, vamos tentar e querer que esse direito questionador e transformador seja ampliado.
 Muita luz pra todos nós!
Links: