domingo, 8 de fevereiro de 2015

Como vai o Ebola?

"Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma." 
Invictus

Imagine acordar, como já aconteceu mais de uma vez com muitos de nós, com os sintomas de uma simples gripe: febre e dores de cabeça. Despreocupado, e sem acesso contínuo e regular a um hospital, você aguarda que eles passem. Dias depois, seu quadro evolui para hemorragias externas e deficiências no funcionamento do rim e fígado. Além disso, seus parentes encontram-se doentes e sua comunidade também. Meses depois, mais de 22.000 de seus semelhantes compartilham de seu estado, e cerca de 9.000 perderam a vida. O nome disso é Ebola, e ele continua a assombrar o continente africano. Apesar disso, os olhos mundiais não se voltam mais para lá.
Quando foi o último dia que você reservou seu tempo para ler sobre o Ebola? Qual foi a última matéria televisiva que falou sobre a epidemia? Agora responda a uma última pergunta: e se fosse na Europa - centro da economia mundial? O destaque, com certeza, não seria tão ínfimo. Então, amigxs, hoje vamos falar sobre o Ebola.
Não é a primeira vez que o vírus assola a África. Já no ano de 1976, ele foi identificado em uma vila chamada Ebola (que originou seu nome), na República Democrática do Congo, quando 426 africanos morreram, e mais 14 surtos existiram. Porém, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a organização Médico Sem Fronteiras, a epidemia atual já é a maior da história da doença. Dessa vez, a costa oeste do continente africano foi atingida, concentrando o maior número de mortes na Guiné, Serra Leoa e Libéria – como ilustrado na figura abaixo.


Mais assustador do que esses dados, é a mínima mobilização por parte dos outros países, especialmente do Ocidente, em providenciar ajuda. Não é novidade a desatenção notável quando o assunto é a ação dos outros países para promover melhorias ou ajudar a população africana a superar suas dificuldades – deixando explícito que, superar as dificuldades não é sinônimo de promover uma ação civilizatória e aculturamento.
Assim, seja nos livros de história ou na escassez notável nos veículos midiáticos, permanecemos nos deparando com uma África que tem voz! Mas que boa parte do mundo não faz questão de ouvir. Apesar de parecer que o Ebola é um problema do passado, e embora o número de casos tenha diminuído no início de 2015, na última semana o número de infectados dobrou na Guiné, de acordo com a OMS. Segundo a porta-voz da força-tarefa contra o Ebola, o aumento já era esperado porque autoridades de saúde só conseguiram acesso agora a vilarejos distantes onde os habitantes não permitiram a atuação das equipes médicas anteriormente.
E isso, claramente, continuará acontecer. Além de não ter cura, a doença é de fácil transmissão: basta o contato com qualquer fluido corporal do paciente infectado (saliva, urina, sangue, lágrimas, por exemplo), mesmo que posterior a sua morte.
Já na metade do ano de 2014, existia uma vacina que poderia proteger organismos contra o vírus do Ebola, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e do Centro de Pesquisa New Iberia, nos Estados Unidos. Inicialmente testada apenas em chimpanzés – que vivenciam com a epidemia uma nova ameaça a sua sobrevivência na África -, a vacina já era considerada segura pelos próprios mentores, mas denotava uma série de fatores para ser usada em humanos. Série essa que resumo em uma palavra: dinheiro.
Acontece que, para vacinar humanos é preciso ter uma licença, que faz necessário extensos testes clínicos, o que é bastante caro. Nesses casos, grandes companhias farmacêuticas financiam esse tipo de experimento, mas aí mora o grande problema: como comentou o próprio pesquisador “Nenhuma empresa farmacêutica vai ganhar dinheiro desenvolvendo uma vacina contra o ebola, que afeta principalmente pessoas que vivem em vilas na África”. Mais uma vez, o capitalismo fala mais alto e passa por cima de nosso caráter humano.
Apenas na semana passada, os testes em humanos foram, finalmente, iniciados na Libéria. Mais de 30 mil voluntários foram recrutados para receber a vacina que é um medicamento preventivo, e não uma cura ou medida de tratamento.
Aqui no Brasil, o surgimento da primeira suspeita de Ebola atuou como válvula de escape para desmentirmos o senso comum de que nosso país é constituído por um povo “sem preconceitos”. A onda racista, vinculada principalmente nas redes sociais, que atribuía aos africanos a culpa da existência e contágio do vírus, não sairá tão cedo da mente daqueles que, como eu, ficaram perplexos com o que leram.
Sei que a solução não está em nossas mãos. Sei que somos insignificantes perante o poder das grandes nações que influem nas decisões. Mas aqui falo da manutenção daquilo que temos de mais relevante: nosso lado humano. Além de nossa consciência histórica.

Lembrar da África é sim muito importante. Falemos sobre África. Falemos sobre os ataques do Boko Haram na Nigéria, falemos do Ebola.

Transcrevi o trecho do poema Invictus, de Willian Ernest Henley, ainda no começo, pois além de adorá-lo, sempre me recordo dele quando o tema é África. Até a próxima!  Muita luz!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Não venha com essa de “feminazi“: um esclarecimento


 “O feminismo é uma forma de viver individualmente e de lutar coletivamente“ - Simone de Beauvoir
Esse post tem o objetivo de responder a uma questão levantada em um comentário do último texto aqui publicado, mas, principalmente, esclarecer uma confusão que há muito tempo me incomoda.
Quando o assunto é feminismo, são inúmeras as duvidas, estereótipos e críticas mal fundamentadas construídas sobre o movimento que há séculos luta pela igualdade entre os sexos. Nos dias atuais, a mais absurda e que, em minha opinião, atua para que muitos leigos posicionem-se contra o tema, é o uso do termo “feminazi“ para descrever as feministas ditas “radicais“.
Hoje em dia, aqueles que destinam seu tempo para atacar os movimentos organizados por mulheres em prol de sua libertação, usam o adjetivo que une as palavras feminismo + nazismo como alusão de que muitas feministas pregariam a superioridade da mulher em relação ao homem em um cenário global, assim como os nazistas atuavam com o objetivo de estabelecer a superioridade ariana na Alemanha – exterminando, dessa forma, todos aqueles ditos impuros: judeus, ciganos, homossexuais, portadores de deficiência física e mental etc.
 Mas a significação nem sempre foi a mesma. A palavra “feminazi“ foi usada pela primeira vez no início da década de 1990 por Rush Limbaugh - comentarista político estadunidense que defende posições direitistas e republicanas em seu programa de rádio - para caracterizar, segundo ele, um tipo específico de feminista: aquelas que se posicionavam a favor da legalização do aborto, o que, a seus olhos, seria uma prática de holocausto.
 Ou seja, o absurdo e a ignorância histórica sempre vigoraram. E enquanto não nos preocuparmos em desconstruir padrões pré estabelecidos e avançar rumo à igualdade, o machismo continuará a existir e a limitar a liberdade de homens e mulheres.
Não se sinta ofendida quando for chamada de feminista radical, pois aí mora outro engano. Ser feminista radical é agir de acordo e defender que o patriarcado é o culpado por vivenciarmos, ainda nos dias atuais, uma sociedade enraizadamente machista que levanta a bandeira de uma suposta superioridade masculina. Feminismo não é o contrário de machismo. Quem cumpre esse papel é o femismo.
É ele quem luta pela superioridade da mulher em relação ao homem, pela inversão do patriarcado para uma sociedade que eleja a figura feminina como principal, de forma que nos vinguemos da ideologia que cerceou nossa liberdade por tantos anos. Isso não faz parte de nosso movimento. Feminismo é igualdade, feminismo é liberdade.
É nosso dever lutar para que a individualidade de cada cidadão seja respeitada, para que a violência de gênero seja punida, para que todos aqueles marginalizados socialmente por desvincularem-se de padrões estabelecidos como “comuns“ pela comunidade tenham seus direitos garantidos e assegurados por lei, e para que nós, mulheres, não sejamos vistas como propriedade privada de ninguém. 
Isso não é Feminismo. Isso é Feminismo.
 Acho engraçado como apenas nos envolvemos em lutas de nosso interesse e que refletem, diretamente, em nosso dia a dia. A dor do outro terá deixado de ser a nossa? O mundo carece de lutadores.
Deixo aqui um vídeo ótimo, que vale reservar um tempo para assistir. 


Espero que tenham gostado! Muita luz pra nós.