quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ideologia de gênero: educação que liberta

"Nós agimos como se ser homem ou ser uma mulher fosse, na verdade, uma realidade interna ou algo que simplesmente é uma verdade sobre nós, um fato sobre nós. Na verdade, trata-se de um fenômeno que tem sido produzido todo o tempo, e reproduzido todo o tempo. Então, dizer que o gênero é performativo é dizer que ninguém pertence a um gênero desde sempre"
                                         Judith Butler 

   Como muitos dizem por aí, os últimos dias estão sendo difíceis para aqueles que carregam consigo valores conservadores e arcaicos quando o quesito são direitos sociais. Dessa forma, festejemos.
    Entretanto, que toda a festança venha acompanhada pela abertura de novos debates, pela problematização de inúmeras carências sociais e pela desconstrução do complexo de vira-latas arraigado em nossa sociedade e que não comporta sentido algum - se é que um dia comportou. Como disse a atriz Marieta Severo em entrevista ao programa "Domingão do Faustão": "Não somos o país da desesperança".
    Vivenciamos a sociedade do mascaramento. Abolimos a escravidão há mais de um século, mas, ainda nos dias de hoje, convivemos com denúncias de trabalho compulsório, com a idealização da inexistente democracia racial e com a grande distância que separa negros e brancos nos diferentes cenários de nosso país. Elevamos a expectativa de vida em nossa comunidade, mas negligenciamos a velhice e jogamos para baixo do tapete toda a sujeira quando o assunto são os direitos negados aos idosos. Abandonamos a infância e, ao invés de discussões que protagonizem as melhorias e transformações na educação, assistimos à votação pela redução da maioridade penal e à sórdida manobra de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para aprová-la.
    Nos orgulhamos por legalizar o casamento homoafetivo há cerca de dois anos, mas dividimos palco com uma série de desigualdades fundamentadas na construção do papel de gênero - tema que, quando discutido, apresenta-se velado por uma série de tabus e desconhecimento social. Enquanto fecharmos os olhos para as agressões físicas e morais, para as imposições comportamentais, para as barreiras construídas e que impedem a plena atuação de grupos marginalizados em nossa sociedade, o real avanço passará longe. E é esse o ponto no qual queria chegar: está mais do que na hora de discutirmos ideologia de gênero.
    Compartilhamos o meio social com gerações que trazem valores machistas e desiguais arraigados em sua educação. O preocupante é acompanharmos novas gerações que perpetuam tais valores e pior: que, em sua grande maioria, não movem um dedo para desconstruí-los. É inegável que nossos valores pessoais são construídos ainda em nossa infância. Assim, nada mais evidente do que promover mudanças no ensino em prol dos avanços. Ninguém nasce machista, racista ou xenófobo. Todas as formas de preconceito são construções sociais e não algo intrínseco ao ser humano.
    Desmistificar os papeis de gênero desde a infância é a saída para a existência de cidadãos que usufruam da sua plena liberdade de escolha e que não julguem as opções de seus companheiros.
    Atualmente, somos representados por um Congresso extremamente conservador, retrógrado e que não acompanha os avanços da sociedade como uma verdadeira democracia estabelece. Nas menores instâncias políticas, a situação não é diferente. Frente às votações municipais para o Plano Nacional de Educação, foi possível observar a maciça campanha contra o estabelecimento da Ideologia de Gênero nas escolas. A ausência de conhecimento da enorme maioria dos cidadãos acerca dos benefícios que tal mudança comportaria colaborou para que muitos se posicionassem contra - bombardeados de argumentos que se fundamentavam na justificativa de que ela acabaria com a "família tradicional brasileira" (sobre a qual mantenho minhas dúvidas acerca da real existência). O problema grita: as pessoas não sabem sobre o que estão discutindo.
    Em discurso na Câmara, o deputado Jean Wyllys, como é de costume, disse uma grande verdade: a desonestidade intelectual da política brasileira quando o assunto é a pluralidade humana e uma educação verdadeiramente libertária é algo preocupante.
    Àqueles que já enxergaram a relevância da desmitificação do papel de gênero: vamos propagar nossa opinião, expor argumentos e lutar, dos pequenos aos vastos âmbitos, para que as barreiras sejam desconstruídas.
    Àqueles que, ainda desconfiados, mas que prezem por uma sociedade mais justa e igualitária: a ideologia de gênero não entra em cena para influir nas escolhas e orientação sexuais dos jovens, muito menos para impor comportamentos ou caracterizações. Luta-se pela liberdade de escolha do indivíduo e pelo fim da performatividade de gênero que impera em nossa sociedade. Nosso sexo não dita quem somos.
Alguns links para entender melhor:
Quando tiverem um tempo, assistam a esse vídeo!

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