Poderia começar esse texto explicando o intuito pelo qual transcrevi a citação de Hegel acima ou dizer qual significação dei a ela perante os últimos tempos. Mas deixarei isso para o final, pois acho que certos pensamentos merecem um bom - e, ao menos pra mim, sempre profundo - momento de reflexão.
Nos últimos dias, a França vivenciou uma série de ataques que mobilizaram não só a sua população, como a de muitos países ocidentais que manifestaram seu apoio aos franceses. Passei esse período lendo e relendo textos e comentários na internet, páginas e mais páginas de blogs que, rapidamente, formularam uma opinião e a publicaram para que muitos, sem tanto analisar e balancear, acabassem aderindo. Além disso, vi a mídia televisiva ocupando boa parte de sua grade com comentários e repetições dos acontecimentos.
Acontece que, por hora, não vim falar sobre a tão comentada liberdade de expressão (que - como futura jornalista e atuante da democracia - defendo sem hesitar), ou sobre o terrorismo praticado por grupos radicais pertencentes ao Islã. Creio que muitos já o fizeram com mais propriedade que eu. Vim falar do que acredito ser respeito, ética, e do quão desapontada me encontro, rotineiramente, com nossos veículos midiáticos quando nos deparamos com grandes acontecimentos.
Não sei qual a opinião de vocês, mas defendo que a mídia carrega consigo um papel educativo. Formar cidadãos de acordo com suas crenças e interesses particulares? De jeito nenhum! Ser de direita ou esquerda, católico ou budista ,são opções que devem ser tomadas por você, de acordo com o projeto que crê ser o melhor para nosso mundo. Quero falar sobre a colaboração para formar cidadãos mais humanos, éticos, conhecedores de história e que tenham argumentos bem fundamentados para entrar em discussões ou disseminar suas opiniões por aí.
Porém, infelizmente, conto nos dedos de uma mão em quantos veículos vejo isso. Na internet, páginas como o Blog do Sakamoto e o Portal Geledés Instituto da Mulher Negra são dois dos pouquíssimos meios em que observo um jornalismo limpo, que tem vasta base histórica e quer mostrar pra gente o quão relevante é ver e pensar de todos os ângulos possíveis.
Talvez alguém imagine onde quero chegar e, antes de tudo: NÃO! Não penso que nada justifique tirar a vida de um ser humano, independentemente do desrespeito que ele tenha praticado com sua crença ou existência. Entretanto, quantas vezes vimos um jornal noticiar, em meio a todos os ataques e posteriores desdobramentos, a xenofobia e o etnocentrismo do povo francês em relação aos muçulmanos?
Ampliando um pouco: quantas vezes vimos, ao noticiar um feminicídio, o telejornal agregar à matéria um embasamento da histórica violência que recai sobre a mulher em uma sociedade enraizadamente machista? Ou quantas vezes um noticiário divulgou a morte de um jovem negro ampliando a discussão com estatísticas que comprovem o fato de essa parcela populacional ser a mais assassinada? Quando foi que, na televisão, ouvimos falar da completa desatenção mundial perante o Ebola que, se não tivesse atingido o continente africano, teria sido visto como um real problema mundial?
Para não ser injusta, neste domingo (11), o Fantástico reservou a parte final de sua matéria sobre o ataque à sede do Charlie Hebdo, para explicar como a população muçulmana - oriunda, principalmente, das ex-colônias francesas ao norte da África - é mal vista e julgada pela população francesa e o quanto essa onda de ataques aumentará os conflitos já existentes. Agora, alguém me diz: por que não inciar a matéria explicando isso? Por que deixar tão explícito que não é de seu interesse criar opiniões que vejam os dois lados da história?
Não são todos que, como eu e muitos de vocês, têm acesso a todo tipo de informação e, principalmente, interesse em procurá-la. Sabemos que a grande maioria da população brasileira assiste a uma mídia televisiva que atua, indiretamente, como formadora de opinião. E é essa a opinião que queremos para o país? Não, obrigada.
É nesse viés de informações distorcidas ou mal complementadas, que observo quase agora está imagem:
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| O desrespeito e ignorância chegaram a um patamar tão elevado, que o maior templo islâmico de nosso país, a Mesquita Brasil, amanheceu pichada neste domingo (11) com o famoso slogan "Je suis Charlie". |
Não precisei estudar para saber que o papel da comunicação não está sendo cumprido. Mostrar os dois lados da história, debater, provocar opinião e discussão: esse é o real papel. Não que queiramos conviver com cidadãos que julguem-se donos da verdade. Mas, ansiamos por encontrar mais pessoas que - exemplificando com o caso atual - saibam nos mostrar e discutir o desenrolar dos acontecimentos e da história francesa que culminou nos recentes ataques e, o pior de tudo, nas recentes mortes de vinte seres humanos.
Por isso, já declarado o quanto repudio os ataques atuais e os anteriores cometidos por organizações como a Al Qaeda, eu afirmo no meu existir que: Je ne suis pas Charlie. Sou Clarissa Jean-Phillipe, Franck Brinsolaro, Ahmed Merabet, Frédéric Boisseau, Michel Renaud, Georges Wolinski, Stéphane Charbonnier, Jean Cabu, Bernard Verlhac, Bernard Maris, Mustapha Ourad, Elsa Cayat, Phillippe Honoré, Yoav Hattab, Yohan Cohen, Philippe Braham, Francois-Michel Saada; sou cada uma das mulheres que são assassinadas a cada 90 minutos no Brasil em decorrência da violência de gênero; sou cada Mike Brown; sou cada uma das 2.000 vítimas nigerianas mortas na cidade de Baga na última quinta-feira (28). Por que sou eles? Porque eles são as vítimas da histórica injustiça que marca o mundo em que vivemos, eles são aqueles dos quais devo me lembrar a cada decisão que tomar, a cada vez que eu optar pelo respeito a todos como a forma mais humana de existir.
Por último, sobre a citação que publiquei no início do post: apesar de muito ter lido sobre o embasamento que Hegel deu para o assunto, não me atrevo a tentar explicar. Compartilho apenas que, no mesmo momento em que li, essas palavras me fizeram pensar sobre intolerância, sobre divergência, sobre Charlie Hebdo, sobre etnocentrismo. Mais do que isso, pensei sobre egoísmo. Pensei no quão feliz me ponho perante os diferentes seres que compartilham a sociedade comigo e o quão fundamental é essa diferença para a manutenção de nosso caráter democrático. Por fim, pensei como estamos carentes de mais consciências no meio de tragédias como as vivenciadas pelo povo francês e, principalmente, as vivenciadas por nós, brasileiros, diariamente.
Aqui deixo um vídeo que acredito estar relacionado com tudo isso (além de ser lindo).
Agradeço quem gastou um tempinho pra ler meus pensamentos e refletir e espero que tenham gostado. Muita luz pra nós!


Primeiramente, tenho de ressaltar a construção do texto que acabo de ler. Está perfeito!!! Parabéns por nos presentear com suas reflexões. Espero entrar em contato com outros e, por isso, já favoritei seu blog. Devo dizer-lhe que serei leitor assíduo de suas ideias e sempre estarei disposto a expor as minhas, porque sou desses mesmo!
ResponderExcluirEu concordo que somos bombardeados por uma mídia opinativa que tenta "deformar" nossos posicionamentos, contudo, dentro de países democráticos ela sempre existirá. E posso ser-lhe sincero? Eu quero que exista e também que exponha seus posicionamentos e isso não quer dizer que apoio "raquéis" e "gentillis". Eu desejo que toda "deformação" dos fatos seja devidamente punida, mas não calada.
Se há problemas de formação escolar em nosso país, não é silenciando os imbecis que resolvemos o dilema da fácil assimilação de informações equivocadas e do riso frouxo em relação a um humor centrado na ridicularização das minorias. Desejo poder discutir mesmo o que está errado.
Também não acredito em discurso imparcial. Todo discurso carrega uma boa parte de subjetividade - uns mais, outros menos -, mas sempre parciais. Isso também não quer dizer que não me cansa o jornalismo burro opinativo. No entanto, basta que eu leia menos os editoriais e artigos, que eu me centre no fato e não na opinião sobre o fato.
Acredito que aceitar ou rejeitar a opinião alheia passa por não criar versões únicas sobre um mesmo fato. Por isso considero muito relevante o que a escritora nigeriana coloca em sua apresentação sobre as histórias únicas. Para compreendê-la verdadeiramente, temos de nos despir de nossos preconceitos e provar de todos os lugares. Saca se colocar no papel do outro? Isso falta mesmo para a humanidade. Talvez se Charb provasse do lugar dos muçulmanos, não desrespeitaria tanto os símbolos que são preciosos a esses religiosos.
Contudo - sempre há uma adversidade - há de se entender também o lugar dos franceses que, historicamente, atacam o pensamento religioso de forma geral. Parece que isso é parte deles. Não nos esqueçamos do que fizeram com algumas catedrais na época da Revolução Francesa. Também não deixemos de lado o quanto eles prezam pelo laicismo dentro dos ambientes do governo. Combater o pensamento religioso parece intrínseco ao modo de vida francês. E acho que deva ser difícil para eles ter de conviver com culturas tão diversas. Talvez esse seja o ônus de ter explorado tanto as pessoas de suas colônias.
É claro que todos os lados poderiam ceder para uma boa convivência e a Europa como um todo - veja o que está acontecendo na Alemanha - terá de aprender com esses assassinatos. Não se atacam mesquitas, não se generaliza o povo muçulmano como gente terrorista, não se agridem símbolos religiosos...
Enfim, há de se aprender que debater com palavras é muito melhor que matar.
Obrigada pelo comentário, Emerson! Espero sempre te encontrar em minhas postagens e poder crescer com sua opinião. Lembro-me de nossa discussão sobre a mídia, em especial a brasileira, e não posso mais deixar de concordar com você. A existência da liberdade de expressão presume que nos deparemos com veículos que tentam "deformar" nossos posicionamentos, como você mesmo disse. Ainda assim, a ausência de clareza me incomoda. Posso até entender que jornais mudem o rumo de sua escrita ou dos acontecimentos para defender, por exemplo, um jogo político. Mas quando tratamos de algo tão sério e humano como a convivência do povo muçulmano com a xenofobia e etnocentrismo, não compreendo. A falta de divulgação só ajuda a disseminar o senso comum de que "todo muçulmano é terrorista".
ExcluirAcredito também que o laicismo deva vir acompanhado do respeito entre as diferentes crenças e para com todas as crenças, mas não é o que vejo por parte de uma grande parcela do povo francês e mesmo de seu representante.
Também anseio pelo dia em que a escrita resolverá grandes embates! Beijos.
Desculpe a intromissão, mas me emocionei com o que escreveu e aí resolvi escrever este tantinho aqui...
ResponderExcluirO Hugo Possolo falou uma coisa muito bacana. "Você pode fazer piada de qualquer coisa, o que importa é saber de que lado da piada você está." Eu que defendo o riso como algo que aproxima, que denúncia, que se compartilha, que é arma de luta e que sensibiliza, me oponho ao riso que ridiculariza o oprimido. Vivemos um tempo que requer reflexão e humildade para reaprendermos a conviver...um enorme beijim palhaçes e evoé Mayara!!!
Nelson Velloso
Fico feliz que tenha gostado, Nelson! Lembro quando fez essa citação em sala de aula, e compartilho da opinião. Acho o trabalho de muitos chargistas maravilhoso, mas também não compartilho do mesmo espírito daqueles que usam sua arte e trabalho desrespeitando qualquer que seja a crença, independente de sua própria. Beijos
ExcluirBelo texto! Sua reflexões são excelentes! Muito orgulho de um dia ter compartilhado uma sala de aula com você!
ResponderExcluirOrgulho tenho eu!
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