"Por ser estreita a senda - eu não declino,Nem por pesada a mão que o mundo espalma;Eu sou dono e senhor de meu destino;Eu sou o comandante de minha alma."
Invictus
Imagine acordar, como já aconteceu mais de uma
vez com muitos de nós, com os sintomas de uma simples gripe: febre e dores de
cabeça. Despreocupado, e sem acesso contínuo e regular a um hospital, você
aguarda que eles passem. Dias depois, seu quadro evolui para hemorragias
externas e deficiências no funcionamento do rim e fígado. Além disso, seus
parentes encontram-se doentes e sua comunidade também. Meses depois, mais de
22.000 de seus semelhantes compartilham de seu estado, e cerca de 9.000
perderam a vida. O nome disso é Ebola, e ele continua a assombrar o continente
africano. Apesar disso, os olhos mundiais não se voltam mais para lá.
Quando foi o último dia que você reservou seu
tempo para ler sobre o Ebola? Qual foi a última matéria televisiva que falou
sobre a epidemia? Agora responda a uma última pergunta: e se fosse na Europa -
centro da economia mundial? O destaque, com certeza, não seria tão ínfimo.
Então, amigxs, hoje vamos falar sobre o Ebola.
Não é a primeira vez que o vírus assola a
África. Já no ano de 1976, ele foi identificado em uma vila chamada Ebola (que
originou seu nome), na República Democrática do Congo, quando 426 africanos
morreram, e mais 14 surtos existiram. Porém, segundo a Organização Mundial da
Saúde (OMS) e a organização Médico Sem Fronteiras, a epidemia atual já é a maior
da história da doença. Dessa vez, a costa oeste do continente africano foi
atingida, concentrando o maior número de mortes na Guiné, Serra Leoa e Libéria
– como ilustrado na figura abaixo.
Mais assustador do que esses dados, é a mínima
mobilização por parte dos outros países, especialmente do Ocidente, em
providenciar ajuda. Não é novidade a desatenção notável quando o assunto é a
ação dos outros países para promover melhorias ou ajudar a população africana a
superar suas dificuldades – deixando explícito que, superar as dificuldades não
é sinônimo de promover uma ação civilizatória e aculturamento.
Assim, seja nos livros de história ou na
escassez notável nos veículos midiáticos, permanecemos nos deparando com uma
África que tem voz! Mas que boa parte do mundo não faz questão de ouvir. Apesar
de parecer que o Ebola é um problema do passado, e embora o número de casos
tenha diminuído no início de 2015, na última semana o número de infectados
dobrou na Guiné, de acordo com a OMS. Segundo a porta-voz da força-tarefa
contra o Ebola, o aumento já era esperado porque autoridades de saúde só
conseguiram acesso agora a vilarejos distantes onde os habitantes não
permitiram a atuação das equipes médicas anteriormente.
E isso, claramente, continuará acontecer. Além
de não ter cura, a doença é de fácil transmissão: basta o contato com qualquer
fluido corporal do paciente infectado (saliva, urina, sangue, lágrimas, por
exemplo), mesmo que posterior a sua morte.
Já na metade do ano de 2014, existia uma vacina
que poderia proteger organismos contra o vírus do Ebola, desenvolvida por
pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e do Centro de
Pesquisa New Iberia, nos Estados Unidos. Inicialmente testada apenas em
chimpanzés – que vivenciam com a epidemia uma nova ameaça a sua sobrevivência
na África -, a vacina já era considerada segura pelos próprios mentores, mas
denotava uma série de fatores para ser usada em humanos. Série essa que resumo
em uma palavra: dinheiro.
Acontece que, para vacinar humanos é preciso
ter uma licença, que faz necessário extensos testes clínicos, o que é bastante
caro. Nesses casos, grandes companhias farmacêuticas financiam esse tipo de
experimento, mas aí mora o grande problema: como comentou o próprio pesquisador
“Nenhuma empresa farmacêutica vai ganhar dinheiro desenvolvendo uma vacina
contra o ebola, que afeta principalmente pessoas que vivem em vilas na África”.
Mais uma vez, o capitalismo fala mais alto e passa por cima de nosso caráter
humano.
Apenas na semana passada, os testes em humanos
foram, finalmente, iniciados na Libéria. Mais de 30 mil voluntários foram
recrutados para receber a vacina que é um medicamento preventivo, e não uma
cura ou medida de tratamento.
Aqui no Brasil, o surgimento da primeira
suspeita de Ebola atuou como válvula de escape para desmentirmos o senso comum
de que nosso país é constituído por um povo “sem preconceitos”. A onda racista,
vinculada principalmente nas redes sociais, que atribuía aos africanos a culpa
da existência e contágio do vírus, não sairá tão cedo da mente daqueles que,
como eu, ficaram perplexos com o que leram.
Sei que a solução não está em nossas mãos. Sei
que somos insignificantes perante o poder das grandes nações que influem nas
decisões. Mas aqui falo da manutenção daquilo que temos de mais relevante:
nosso lado humano. Além de nossa consciência histórica.
Lembrar da África é sim muito importante. Falemos
sobre África. Falemos sobre os ataques do Boko Haram na Nigéria, falemos do
Ebola.
Transcrevi o trecho do poema Invictus, de Willian Ernest Henley, ainda no começo, pois além de adorá-lo, sempre me recordo dele quando o tema é África. Até a próxima! Muita luz!


Texto muito sensível, excelente! Mas poderia ter mencionado o papel dos médicos cubanos no combate a epidemia!
ResponderExcluirhttp://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141024_medicos_cubanos_ebola_elogios_fn