sexta-feira, 1 de maio de 2015

Brasil: não usemos eufemismos

    Logo aviso sobre a certeza de que discorrerei acerca de mais temas do que o previsto... hoje estou mais falante do que o normal. Ainda assim, o principal problema - que vem rondando minha mente há um bom tempo - é como a culpabilização da instância política federal como única responsável por inúmeros déficits e precariedades que existem em nosso país funciona como válvula de escape à preguiça, ou mesmo à falta de interesse da maioria dos cidadãos em defender uma ideia e buscar as reais causas e soluções para as problemáticas sociais.

    Greve dos professores, Eduardo Cunha, cobertura do terremoto no Nepal, exposição e agressão à Verônica, terceirização, morte de migrantes no Mar Mediterrâneo, maioridade penal, assassinato de mais um jovem negro pelas mãos de um policial e consequentes protestos em Baltimore... Ufa! Cada dia em que ligamos a tv ou abrimos o Facebook, nossos olhos se deparam com mais uma notícia para discutir. E não. Infelizmente, na grande maioria das vezes, elas não são boas.
    O Facebook sofreu e vem sofrendo uma transformação  na qual deixa de ser uma mera rede social onde expomos nossas vidas particulares e passa a ser centro de muitas discussões e debates - alguns de menor, outros de maior relevância. Ainda assim, observamos a ascensão do pensamento crítico e compartilhamento de ideias entre aqueles que se dispõe a tentar enxergar um novo ponto de vista e expor o seu.
    Junto com algo que, sob meu olhar, pode ser considerado positivo, é gritante a existência daqueles que se aproveitam do anonimato e escondem-se atrás da tela para propagar opiniões de cunho sexista, racista, xenófobo, homofóbico, preconceituoso. Isso me assusta! E o simples ato de bloquear o indivíduo de nossas páginas não diz que anularemos sua existência ou que impediremos que ele continue a propagar as mesmas ideias por ai.
    Eu sempre acreditei que a história teria como uma de suas funções fazer com que os erros cometidos no passado não fossem repetidos no presente, e isso - longe de ser um senso comum repetido quando somos questionados sobre "qual o papel da história" - deveria ser a realidade. Porém, a gente sabe que não é assim.
    A última geração tem assistido à ascensão de partidos de extrema direita no cenário europeu - que mais do que defenderem uma forma de atuação política e econômica, perpetuam um discurso de ódio aos imigrantes. Aqui no Brasil, a situação não é melhor. E acho um grande eufemismo dizer que não podemos comparar a situação de nosso país à de demais nações mundiais. Ainda que vivenciemos e já tenhamos conquistado muitos avanços, a coisa aqui está feia.
    Defender a volta da Ditadura Militar? Contar com um presidente da Câmara dos Deputados que usa das defesas mais sórdidas para atacar e diminuir significativamente os direitos conquistados por trabalhadores desde a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) do governo Vargas e que tem a coragem de dizer que a legalização do aborto só será realizada "por cima do seu cadáver" em um país onde milhares de mulheres morrem anualmente por conta do aborto ilegal? Assistir ao uso de violência policial contra os professores que estão em greve em busca de direitos legítimos que não lhes são fornecidos e lutando contra a precarização de sua previdência social e ainda ler a declaração do governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin,  dizendo que "não há greve alguma"?
    A negativa de que nossa situação está muito ruim é, no mínimo, comodidade daqueles que não têm seu padrão de vida e seu dia a dia diretamente afetados pelos direitos suprimidos, em especial, das camadas mais marginalizadas da sociedade; e também uma forma de fechar os olhos para o país que  temos o dever de modificar, para a política que temos o dever de reformar, e para o seu papel de cidadão que é SEU dever cumprir.
    Ao mesmo passo, a incapacidade de muitos em avançar numa real discussão ao invés de apenas responsabilizar o governo petista e a Presidenta Dilma Rousseff por todos os problemas que assolam a sociedade -  ao invés de enxergar a formação histórica do Brasil como um Estado majoritariamente governado pelas elites econômicas - não colabora para que ampliemos o debate e possamos, quem sabe, a  cada compartilhamento de ideias, tornar-nos mais atuantes socialmente e disseminadores de pensamentos que visem um real avanço social e que proporcionem mudanças através da luta legítima que uma democracia porta.
    Toda discussão que vise problematizar a atual situação político-social brasileira deve fomentar o debate sobre a nossa grande - e vergonhosa - mídia. Aliás, esse foi o tema do primeiro texto que publiquei aqui no blog há quatro meses. Há quatro meses, minha opinião poderia ser expressa novamente, como se os dias e a revolta se repetissem. Como já mencionei mais de uma vez, sou defensora da liberdade de expressão e da manutenção das liberdades midiáticas. Apesar disso, meus olhos enxergam nitidamente como nossa mídia, da forma mais suja possível, não cumpre o real papel da comunicação e atua, indiscutivelmente, como formadora de opinião.
    Fazendo um paralelo com  as coberturas midiáticas do início deste ano, da mesma forma que observamos inúmeras matérias sobre o ataque à sede do jornal francês Charlie Hebdo e um destaque ínfimo às mais de 2000 vítimas nigerianas no ataque do grupo extremista Boko Haram à cidade de Baga; hoje, somos espectadores de um horário nobre que aproveita-se da tragédia nepalês e não apresenta sequer uma cobertura que retrate a realidade vivenciada pela classe de professores que foi às ruas do Paraná reivindicar seus direitos e sofreu a repressão de uma polícia que não defende, que não preserva, mas que abusa do poder e violenta (ao final, dos cerca de 200 feridos, 63 foram encaminhados para hospitais).

    Antes de julgar aqueles que deixam-se usar como massa de manobra, acho relevante rememorar que grande parte dos cidadãos têm a televisão como único veículo de informação - muitos porque seu lugar na sociedade não lhes permite almejar uma maior intelectualidade. Também devemos lembrar que a população brasileira convive com a carência de educação política. Dessa forma, o que pra mim ou pra você pode parecer um absurdo e uma grande manipulação dos fatos, para a grande maioria configurasse como mais uma notícia cotidiana  sendo retratada em sua íntegra.
    Os veículos de informação televisivos adquiriram uma força e atuação de dimensões tão grandes em nosso país, a ponto de serem considerados decisivos nas decisões políticas nacionais. Não seria isso preocupante? Eduardo Cunha, nosso excelentíssimo presidente da Câmara, em resposta à manifestação de um homem contra a comemoração dos 50 anos da Rede Globo, argumentando que ela teria apoiado a Ditadura Militar (o que, comprovadamente, é verdade); alegou que a emissora foi e é de extrema importância para a existência e continuidade da democracia no Brasil. Ao que devemos nos atentar? A Rede Globo, basicamente, não exibiu coberturas ou explicações sobre as manifestações populares e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) contra o projeto de emenda constitucional que legitima a terceirização para todas as atividades-fim e que foi proposto pelo político.

    Outra demonstração da força das emissoras de tv é o fato de que a Comissão Especial da Câmara dos Deputados designada para discutir a PEC 171/93, que propõe a redução da maioridade penal, convocará os jornalistas Marcelo Rezende, José Luiz Datena, Rachel Sheherazade e Caco Barcellos para uma audiência pública sobre o tema.
    Enquanto muito me questionava o motivo pra isso, eis que me deparo com a resposta do deputado André Moura (PSC-SE): “Todos eles são formadores de opinião e todos eles, nos seus programas, nas suas matérias, sempre trazem a discussão da redução da maioridade penal. Como eles conhecem a realidade, entendo que seria bom trazer a opinião deles sobre o tema na comissão". Pois bem, o que aguardar de um país onde jornalistas reacionárias, preconceituosas e disseminadoras do ódio, como Rachel Sheherazade, são convidadas para dissertar opiniões em um projeto discutido na instância federal?
    A comodidade de ser um ser não pensante nos atrasa. Ninguém sozinho muda um mundo, ninguém sozinho com sua revolta proporciona uma grande transformação social. Mas tudo começa com o incômodo... E enquanto permanecemos sentados esperando que um problema bata em nossa porta e influêncie em nossas vidas, o mundo continua e discursos como o do papa Francisco, realizado na ilha de Lampedusa em 2013, criticando o fato de vivenciarmos a chamada "globalização da indiferença", continua a fazer todo o sentido.

Alguns links:

Por hoje é isso! Espero que gostem e que muitos compartilhem um pouco da minha opinião...
Muita luz!

2 comentários: